Por thiago.antunes
Rio - O festeiro e atrasado jovem podia ver os Arcos por trás de uma espessa cortina de chuva. O vento gélido que circulava sobre o largo deixava o percurso cada vez mais desconfortável. Relâmpagos acendiam o céu em tons de roxo e violeta. “Está perto”, seguia pensando.
O ressoar de um forte trovão o obrigou a olhar para o alto; assustou-se. Voltando-se ao caminho, foi mais uma vez surpreendido: diante dele, um drogado, armado com uma pequena faca, exigia que lhe entregasse o que tivesse.
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Nunca havia visto um cracudo; pelo menos não tão de perto quanto via naquele momento: era um menino. Parecia não comer nada há muito tempo, estava muito magro. Arfava como se estivesse se recuperando de uma longa corrida. Seu olhar era sombrio, desfocado, perturbado. Estava tremendo.
“Rápido! Vai, vai, vai, me dá!”, falava o drogado em tons de ameaça. O jovem não sabia o que fazer; nunca fora assaltado na vida. Brevemente recordara as reportagens a que assistira sobre a violência no bairro da Lapa. Nunca pensou que um dia poderia ser vítima dessa mesma violência.
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No denso rol de informações que agora perpassavam sua mente, não conseguia falar, não conseguia se mover. Continuava olhando para o rosto do menino criminoso, que mostrava-se cada vez mais impaciente. Não podia perder mais tempo. O abstinente sabia que era arriscado demais permanecer por ali sem ser percebido por outras pessoas. A fome já o assolava com agudeza, a sentia cada vez mais intensa. Não podia esperar.
“Entrego minha carteira? Entrego meu celular? Ele tem só uma faça, vai ser fácil fugir. E se ele me perseguir? Posso ir para aquele bar. Onde está a polícia?” Ideias em série circulavam sobre a mente do rapaz vítima. Indiscretamente, deslocava sua atenção para possíveis planos de fuga. Segundos de despercepção muito lhe custaram: sentiu uma dor lancinante no lado esquerdo no peito, pouco acima do umbigo. Fora esfaqueado.
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Caiu ajoelhado no chão, a poucos centímetros do asfalto. A chuva já não estava tão forte quanto antes, mas o frio que outrora já lhe incomodava fazia-o sentir, agora, como se pequenas lâminas cortassem sua pele. Não conseguia respirar direito. Logo percebeu o gosto salobro de sangue em sua boca; seu corpo sinalizava que algo estava errado: um pulmão perfurado. Tentou pedir socorro, mas toda tentativa de emissão de som era acompanhada por uma dor indescritível. Precisava de ajuda.
Em ágeis movimentos, o assaltante procura nos bolsos da vítima, que jaz em agonia, objetos de valor. Usurpa-lhe a carteira e o celular. Satisfeito, vai-se pelas sombras, sorrateiramente, indolente, dependente.
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(Continuação da semana passada. A série termina sexta que vem)
Fillipi Lúcio Nascimento da Silva é pesquisador da UFRJ e da UFAL
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