Por thiago.antunes
Rio - Quase um striptease, Papai Noel aparece de Mulata Bossa Nova, e o Carnaval de rua abre alas no Rio de Janeiro. Mesmo de banho tomado, sou bloco de sujo até os ossos. Minha fantasia está pronta, basta, sou carioca. Fiz, com o meu parceiro Aldir Blanc, um samba chamado “Vitória da Ilusão”, gravado com a participação da nossa madrinha, Beth Carvalho.
Um dos versos diz que “o menino é a menina, e o doutor juiz, a bailarina”, traduzindo o enredo dessa conversa. Tinha eu uns 15 de idade, no Méier, e já assistia na Rua Constança Barbosa aos ensaios do Labareda, inspirado bloco do mestre João Nogueira. João era o compositor, diretor de harmonia, tesoureiro, carnavalesco e passista.
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Esqueci, também era presidente e vice, ao mesmo tempo, da agremiação. O bloco nasce na birosca, na pelada de casado e solteiro, no churrasco na laje, na ilusão necessária pra ser feliz. Um gaiato, sempre bem-humorado, dá nome ao filho, o intelectual decide as cores a partir de uma conclusão histórica e, uma semana depois, começam os “finalmentes”.
Depois vêm os sambas. Poetas da cidade, criamos refrões e ironias, hologramas de Lamartines e Braguinhas, cadenciados feito Zé Kéti, João Roberto Kelly. Chegam os vizinhos. Vêm como quem corre no Cosme e Damião. Formam­se alas, amigos distantes, vaquinha pra cerveja da bateria ainda improvisada, e o coração apertado no dia do desfile. O bairro toma partido, livro de ouro e um pequeno trecho da via interditado. Com a data oficial da apresentação decretada, está criada a nova tradição do Carnaval. Claro, escrevo com palavras de outro século.
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Na primeira vez que acompanhei o Bola Preta, um folião, com razoável aptidão, realizava passes de um bailarino erudito, caso necessário. Meu querido Marcão, o “carvalhão” da nossa Bete Mendes, esperava a saída do cordão dormindo na escadaria do Teatro Municipal. Em outra latitude, Zona Sul, O Simpatia é Quase Amor se concentrava em frente à Adega Rio Nápoles. Dentro, uma cepa de açougueiro dava suporte às tulipas de vidro e meia porção de carne assada.
Alguns galhardetes surgiam na calçada, frases de outra canção que também fiz com o Aldir — “Só Dói Quando eu Rio”. Um São Sebastião flechado como símbolo da nossa resistência cultural e lá iam os 18 em nova direção. Hoje estamos maiores que um trio elétrico da Bahia. Sei lá. Como diria o roqueiro, o tempo não para. Já fomos Barba’s, Suvaco e Banda de Ipanema. Hoje estamos Boitatá e Sargento Pimenta. Aproveitando a dica: Se for mijar, não vá à rua. Se for à rua, não mije! Amanhã tem o Grito da Sebastiana. Tô lá.
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