Por thiago.antunes
Rio - Na entressafra das notícias da política, o assunto dos últimos dias parece ser mesmo os tais ‘rolezinhos’ — passeios em shopping centers de centenas de jovens pobres, com idades entre 15 e 20 anos. Em geral, eles são convocados pelas redes sociais. Nos ‘rolezinhos’, os participantes não cometem crimes. Cantam funks e se divertem com o medo que sua presença causa nos frequentadores habituais daqueles templos de consumo e nos lojistas. É como se estivessem dizendo: “Estamos aqui. Existimos!”
Tendo começado em São Paulo, os ‘rolezinhos’ devem chegar ao Rio. Já há um marcado para domingo no Shopping Leblon. Pelo visto, arriscam ser a novidade deste verão — estação que costuma lançar modas. A reação aos ‘rolezinhos’ tem variado.
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No último fim de semana, eles foram reprimidos pela polícia paulista, com base numa decisão judicial — inconstitucional — conseguida por seis shoppings. Por sua vez, segmentos da classe média têm manifestado contrariedade com a possibilidade de ver seus espaços ocupados por jovens de periferia, mostrando-se preocupados com a possibilidade de os ‘rolezinhos’ desencadearem arrastões. O Facebook chegou a tirar do ar mensagens de convocação para esses eventos.
Mas a forma como os ‘rolezinhos’ estão sendo vistos começa a mudar. Ontem, os jornais já noticiavam que o secretário de Segurança Pública de São Paulo admitia que eles, por si só, não constituem crimes. O prefeito da capital paulista, Fernando Haddad, designou o secretário municipal da Igualdade Racial, Netinho de Paula, para dialogar com os líderes do movimento.
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A preocupação era que uma repressão policial tivesse o mesmo efeito daquela que se abateu sobre as chamadas Jornadas de Junho, fazendo com que o movimento crescesse. No Rio, o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, foi pelo mesmo caminho da tolerância e afirmou aos jornais que os ‘rolezinhos’, por si só, não configuram ilegalidade. Melhor assim.
É possível que os ‘rolezinhos’ causem transtornos aos frequentadores habituais dos shoppings. Numa sociedade partida como a brasileira, é compreensível também — ainda que lamentável — que determinados segmentos vejam com cautela a ocupação de certos espaços por jovens da periferia.
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Mas seu lado positivo supera, em muito, seus pontos negativos. Eles servem para explicitar um quadro grave: na sociedade brasileira há um apartheid social. Existem lugares que não são para pobres. É preciso pensar sobre isso. Mesmo que certas decisões judiciais pareçam querer corroborar esse absurdo.
Wadih Damous é presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB e da Comissão da Verdade do Rio
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