André de Paula: A Comissão da Meia Verdade

Fui preso político na ditadura militar, torturado com minha irmã, Regina, e meu ex-cunhado, Daniel, todos agentes de pastoral da então Prelazia Católica

Por O Dia

Rio - Fui preso político na ditadura militar, torturado com minha irmã, Regina, e meu ex-cunhado, Daniel, todos agentes de pastoral da então Prelazia Católica, de Conceição do Araguaia e Marabá, no sul do Pará (1976-1977), todos anistiados — porém, com recursos pendentes, uma vez que foi pífia a quantia que recebemos.

Defendemos o sagrado direito da posse contra o latifúndio aliado dos militares. Da refrega entre as partes, dois policiais militares foram mortos, e nós, acusados de incitamento. Fugimos para o Rio de Janeiro, onde fomos presos na Polícia do Exército, depois conduzidos para o Aeroporto Militar de Belém, Quartel General e 2º Batalhão de Infantaria de Selva.

Dessa forma, teríamos um pouco a contribuir para elucidação de parte desses tenebrosos anos. Assim, nos colocamos à disposição e entrevistamos a colega Rosa Cardoso, ex-presidenta da dita Comissão Nacional da Verdade (CNV) no programa ‘Sem Teto em Revista’, da Rádio Petroleira, que vai ao ar todas as quintas-feiras, às 19h30.

Até hoje, contudo, não fomos chamados para prestar depoimento. Será que o fato de nos colocarmos contra a política neoliberal do governo federal e de seus aliados no Rio levou a estas posições mesquinhas de não analisar nossos recursos na Comissão da Anistia e não nos convocar para prestar depoimento na CNV?

Aliás, realmente Comissão da Meia Verdade, uma vez que até hoje os torturadores não foram punidos, apesar de terem cometido crimes hediondos e imprescritíveis. Não se trata de revanche contra nossos algozes, general Euclides de Figueiredo, irmão do ex-presidente também já falecido, coronel Ernani Guimarães Teixeira e o promotor José Manes Leitão.

Nós os perdoamos, assim como fez João Paulo II, que perdoou na prisão aquele que o feriu gravemente. Apesar desse gesto profundamente cristão, o Papa não pediu para que Ali Agca fosse solto, uma vez que se assim o fizesse estaria cometendo uma injustiça, porque o transgressor deve pagar por aquilo que faz. Perdão e justiça caminham lado a lado e não são posições antagônicas.

Parece que especialistas, ex-presos políticos e familiares de mortos e desaparecidos têm razão ao afirmar que a CNV é lenta demais e escolheu casos exemplares para investigação. Na verdade não existe caso exemplar para tratar de violação de direitos humanos.

Não pode haver apuração parcial, nem escolha de personagem. Tudo tem que ser investigado, doa a quem doer, sem escolhas partidárias, pois só a verdade total e seus desdobramentos e punições farão com que essas violações não continuem se repetindo — como se repetem no Brasil da ditadura civil do capital em que vivemos. É o governo da meia verdade e dos criminosos leilões do petróleo e gás.

André de Paula é advogado da Frente Internacionalista dos Sem Teto

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