Fernando Scarpa: Ano novo, vida velha

É inquestionável que o ano mudou, claro, mas apenas no calendário

Por O Dia

Rio - É inquestionável que o ano mudou, claro, mas apenas no calendário. Alguns aumentos de passagem são feitos na moita. Toda a velha história de anos atrás. Antigas estratégias que te pegam de surpresa logo no início do ano.

Você, cansado dos desgastes do Natal, nem tem forças para reagir. Acredito que passeatas e protestos nos meses de janeiro e fevereiro nunca aconteceram na história do país. Se alguém souber de alguma, por favor, me conte. Convenhamos, não é hora disso, o Brasil está na ressaca das festas, lento, esperando algo acontecer.

Verdade, sempre foi assim, festivo, indolente, mesmo nesses meses. Mas luta antes do Carnaval só mesmo para pagar a fantasia e cair na folia. Contatos mais sérios com os problemas, creio que serão adiados. O calor castiga firme, o sol arde, e a praia convida de modo irrecusável.

Que começamos o ano, não há dúvida, mas muitas outras coisas cotidianas não começaram. Funcionam por outro mecanismo, demoram. De alguns sofrimentos nem sempre queremos nos livrar. É como o osso do cachorro: ficamos roendo ele devagar, saboreando.

Mudar, assim como o ano muda, não muda! Nossos problemas vêm de outros tempos, são antigos neste 2014. A essência deles não se modifica com a troca de data. Mas há, sim, nova chance de serem resolvidos, para que não voltem a aparecer em outros anos e fiquem mais velhos ainda.
A receita? Esforço, perseverança, foco, pé no chão. Se possível, caminhe descalço!

Fique antenado. Com sorte, esteja no lugar certo na hora certa. Acabe aquele curso que começou, pague a velha dívida, reveja seu casamento... Bom, é só ir complementando essa sequência com suas necessidades. Se você se empenhar, tudo muda e se transforma. Esperar acontecer? Não adianta! Mão na massa, já!

A palavra mudança é sugestiva. Pede que tudo mude junto ao calendário, só que a vida não funciona assim. As transformações humanas são lentas. Quem esperou mudanças intensas, tudo de novo na virada do ano, caindo do céu, virou mesmo? Se é que virou, foi do avesso ao esperar que os desejos caiam do céu. Até pode ser! Mas é melhor não confiar muito!

Fernando Scarpa é psicanalista

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