Milton Cunha: Cápsula do tempo

Vejo o impacto que aquilo me causou, fazendo de minha vida dois pedaços: um antes e outro depois de Ney

Por O Dia

Rio - Está em cartaz no Salão Nobre do Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, até 23 de fevereiro, a exposição “Cápsula do Tempo, Identidade e Ruptura no vestir de Ney Matogrosso”, com minha curadoria para a Modateca do Senac de Santo Amaro, São Paulo. A exibição já rodou oito cidades de São Paulo e depois segue para Campos dos Goytacazes e Niterói.

Ney procurou durante anos uma instituição brasileira na qual ele sentisse firmeza para entregar suas mais de 300 peças, que, como ele mesmo diz, sobreviveram milagrosamente aos 42 anos de carreira triunfal pelos palcos brasileiros. Cada show que Ney projeta (e uso a palavra projeto pois ele imagina junto cenário, que roupa vai usar, que luz vai acender, quais acordes vão tocar, enfim, ele é um encenador de mão cheia e explica muito bem, para todos nós que trabalhamos para ele, como vai ser cada detalhe do todo) é acompanhado de figurinos que vão de macramê tribal ao intergaláctico de metal e paletós comportadíssimos, que Ney considera tão figurino quanto um cocar de índio. Para ele, a cena é absoluta e sagrada.

Mas o que eu quero mesmo, além de convidar todos vocês para assistirem à exposição, de terça a domingo, das 14h às 21h, é contar sobre o coquetel de abertura, e a avalanche de gente que parte para cima de Ney para contar algo que é muito importante para cada um dos fãs. Eles precisam contar, e Ney, calmo, fica olhando intrigado todas aquelas pessoas falando nervosamente, pois enfim chegaram defronte da estrela e vão contar algo que planejaram contar durante anos. Pois o rapaz avançou e disparou: “Eu fui expulso de casa com a roupa do corpo e carreguei embaixo do braço 19 discos seus. Trabalhei, venci na vida e voltei com muitas roupas e os mesmos 19 LPs embaixo do braço, que tanto me inspiraram. Sua música foi minha companheira nos momentos mais duros”.

Cada fã, ao ver as roupas, se lembra onde e como estavam quando viram o cantor com aquelas roupas. Ao passearem por entre as cápsulas, silenciosamente, eles voltam no tempo e devem se lembrar de suas juventudes. É uma trilha de cada um de volta ao seu passado. E, para não fugir à regra, conto agora a minha experiência: quando toquei nas cordas da tanga de sisal dos Secos e Molhados de 1972, enquanto vestia o boneco, fechei os olhos e vi o menino que, levado pelo pais, foi ao ginásio da Tuna Luso Brasileira, na periferia de Belém do Pará, para ver a eleição da Miss Pará, e, no intervalo para a contagem de votos, as luzes se apagaram, e os três rapazes entraram no palco com os rostos pintados. O Vira, Sangue Latino, Rosa de Hiroshima, Fala... Como se fosse hoje, vejo o impacto que aquilo me causou, fazendo de minha vida dois pedaços: um antes e outro depois de Ney Matogrosso, arauto da liberdade.

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