Rio - O episódio da van que matou duas pessoas e deixou mais de uma dúzia de passageiros feridos evidencia uma preocupante debilidade no transporte urbano. A quantidade de erros do poder público no desastre dá a dimensão do desafio, e não se deve perder nem mais um minuto sequer para enfrentá-lo. O que aconteceu na Estrada dos Bandeirantes na segunda-feira está muito longe de ser fatalidade — e pode voltar a acontecer, se nada for feito.
Existem dois grandes problemas. Um, evidentemente, é a fiscalização, praticamente inexistente. É inaceitável que um sujeito sem qualquer habilitação consiga dirigir uma van, lotar um veículo e fazer um trajeto completamente fora do itinerário para o qual a placa fora designada. Contribui para a cegueira do Estado a estrutura kafkiana na qual operam as vans.
A prefeitura empreende reforma no setor que deixa pontas soltas. Até que se complete o turbulento processo de licitação — várias vezes abortado —, a cidade conviverá com dois sistemas. Isso, contudo, não é desculpa para o vale-tudo exposto na capotagem da van: o dono do carro é um, o permissionário é outro, e o motorista, um terceiro, que nem podia tocar no volante. Espera-se que a concessão pública desate todos esses nós, investindo em fiscalização e cumprimento de normas.
A outra questão é ainda mais complexa. Está relacionada à deficiência do transporte público como um todo, que deixa prosperar a enorme frota de vans e Kombis com irregularidades. Os ‘piratas’ existem porque nem sempre os ônibus — ou o trem, ou o metrô — chegam aonde o passageiro está. E as zonas Oeste e Norte são as que mais sofrem com lacunas.
Basta lembrar a reportagem do DIA da semana passada que contou pouquíssimos ônibus refrigerados indo para lá — a frota de frescões se concentra na Zona Sul. Antes fosse somente este problema. BRTs e BRSs podem reequilibrar a balança, mas é preciso ir além, com controle efetivo de carros e contagem de passageiros.
Cassar a licença do permissionário da van acidentada é solução óbvia que nem merecia ser anunciada, tamanha a quantidade de falhas a reparar.