Editorial: De novo, a cantilena fácil da ‘fatalidade’

Autoridades adoram recorrer ao deus do imponderável toda vez que algo dá errado

Por tamyres.matos

Rio - Autoridades adoram recorrer ao deus do imponderável toda vez que algo dá errado. Com o dia de caos advindo do nó górdio que um descarrilamento deu em todo o sistema ferroviário do Grande Rio, não foi diferente. De novo, chorou-se pela ‘fatalidade’ do acidente, mais um entre vários. De ‘fatal’, talvez, apenas o azar de o vagão ter tombado exatamente num ponto que fez desligar a rede aérea, paralisando todos os ramais por quase 12 horas. Mas, a despeito da má-sorte, deve-se repetir à exaustão: tudo isso poderia ter sido evitado.

A saber: as composições não são novas. Já se sabe que uma falha no ‘truck’ — o esqueleto do vagão — foi a causa de todos os males de ontem. Peças se deterioram porque a via férrea também apresenta problemas. Seria obrigação da concessionária e do Estado renovar as composições já e trocar os trilhos, mas a desculpa dos investimentos, de prazos e de contratos sempre cola. O que não convence é a suposta manutenção não detectar nem prevenir os frequentes incidentes. O de ontem parou o Rio. O de amanhã pode matar.

E nessa omissão se inclui a pretensa agência reguladora, que afirma inspecionar os modais. Passageiros, no entanto, têm dificuldade em ver os fiscais em ação. As multas aplicadas parecem surgir tão-somente quando ocorrem tragédias. E a população já questiona a eficácia das infrações. Se o objetivo é punir as empresas, talvez as autuações nem façam cócegas. Quando alguém fala mais grosso e pede a suspensão da concessão, logo põem-se panos quentes.

E mais uma vez a cidade tardou a responder à calamidade. Plano de contingência só funcionou na volta para casa, quando os próprios trens já estavam parcialmente circulando. Pela manhã, porém, amontoaram-se multidões nas estações, e a dificuldade em pegar transporte alternativo foi imensa. Não é fácil remanejar ou absorver 600 mil pessoas, mas a mobilidade urbana precisa de redundâncias. O problema é que sempre dão um jeito de deixar para depois.

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