Fillipi Lúcio Nascimento: Infinitesimal

As vivas cores da escada, realçadas por pequenos refletores, veem-se encobertas por breve garoa

Por tamyres.matos

Rio - Luzes desfocadas. Sons abafados. Movimento. Saindo da inconsciência, o rapaz procurava se localizar. Era um ambiente claustrofóbico. Trancos, desvios e arrancadas o fizeram perceber que estava em uma ambulância. Não podia se mover com facilidade, estava preso a uma maca. Recebia em seu braço direito uma solução intravenosa. Pontadas de dor o retomaram a um último episódio. Seu desconforto chamou a atenção de dois paramédicos que prontamente se puseram a acalmar-lhe: “Já estamos chegando.”

A Escadaria Selarón estava estranhamente vazia. Decerto a chuva afugentara o público que costumeiramente visita a atração da Rua Manoel Carneiro. As vivas cores da escada, realçadas por pequenos refletores, veem-se encobertas por breve garoa. Ouvem-se risos e conversas das pessoas reunidas nos bares próximos ao pé da escadaria. No alto, aos últimos degraus, o menino desembrulha desesperadamente duas pepitas de crack que acabara de angariar. Até mais do que esperava. Ansiava consumi-las, a angústia era intensa, a dor era insuportável. Em seu pequeno cachimbo improvisado com madeira e canos de PVC, acomoda as pedras. A chama azul de seu pequeno isqueiro revela um consumo acelerado; acende-as. Em desespero, inspira-as. Minutos.

Era mágico. O adolescente contemplava em torno de si uma aura brilhante em tons de verde, azul e vermelho. Flashes em intensidade, faíscas dançantes, aurora em forma. Precisava sentir aquilo novamente. Não havia dor, não havia sofrimento. Estava vivo!

“Por favor, mandem uma ambulância aqui na escadaria da Lapa! Tem um menino se debatendo aqui!”; era a solicitação de uma moradora que observa, da sacada da sua casa, um rapaz sob fortes convulsões nos degraus da escada. Fantasia nociva.

[...] J. L. N., o rapaz esfaqueado, 21, fora atendido e internado em uma UPA da Zona Sul do Rio. O jovem morreu por complicações respiratórias no pós-operatório. M. A. A., o usuário de crack, 16, recebeu atendimento em uma UPA da Zona Sul do Rio. Sofria de hepatite fulminante, jazia em estado crítico. O adolescente morreu por falência do fígado. Concluso.

(ESTE ARTIGO ENCERRA SÉRIE INICIADA HÁ DUAS SEXTAS-FEIRAS)

Fillipi Lúcio Nascimento da Silva Pesquisador da UFRJ e da UFAL

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