Moacyr Luz: A cidade em movimento

Sou testemunha da resistência carioca. O clique vem com um sorriso de paixão, amor por esta cidade, Rio de Janeiro

Por tamyres.matos

Rio - O táxi desemboca na Lagoa. Céu de brigadeiro, um azul plagiado no espelho d’água, às vezes prata dos peixes sufocados, mas sempre calma, marola de paraíso na restinga da Zona Sul. Percebo a morena de moletom. O corpo entrega uma dedicação diária, respiração controlada e coco na sombra. Enxugado o suor, o celular sai de um pequeno acessório preso ao braço. Ela escolhe um ângulo dessa paisagem cotidiana. O clique vem com um sorriso de paixão, amor por esta cidade, Rio de Janeiro.

Sigo pro Bar Urca na última curva do bairro. O dia vive uma brisa de feriado, carros em marcha lenta, janelas abrindo mais tarde. Sento na murada, talvez, ali, uma invenção de Deus, e acompanho um pescador amador fisgando o segundo filhote de carapicu. Eufórico feito um caçador de tubarões, abre o zíper da pochete, máquina digital fininha e um close no peixe de boca aberta no anzol maior que o corpo. Deve ter percebido na lente a natureza em volta.

Esquece o marinho, dá um zoom no Pão de Açúcar e ri, encantado. É a consagração dessa escultura natural. Tanto faz se a proa que singra a enseada espuma no iate do Roberto Carlos ou alaga o bote do querido Camunguelo. Mais uma vez, a paixão.

A semana ainda é de São Sebastião. Os trens descarrilam. Os novos dedos do Cristo Redentor vão custar dois milhões. Um pra cada ‘falange’. São flechas no peito de quem insiste na esperança.

Prefiro pensar no samba. Já é noite. Passa das dez horas, pelo menos. Estou visitando o ensaio da Renascer de Jacarepaguá no meio do furacão das obras da Transcarioca. A avenida, no Largo do Tanque, cravejada de enormes cones, atrapalha a evolução da escola. O tempo não para. Um trator a pleno vapor se destaca na batucada afinada. A escola está no Grupo de Acesso, hoje chamado de Série A, dinheiro contado e pedras no caminho. Os intérpretes puxam o samba, o mestre ajeita o apito, vai começar o ‘desfile’. Estou emocionado.

A vista, mesmo turva com a poeira constante, encontra a delicadeza da Rainha da Bateria. Gabriela está à frente dos ritmistas, samba com a nobreza do cargo, ergue os braços no refrão e comove a diretoria. O salto alto rala no asfalto crespo, esfola a ponta dourada. Nada a faz perder o equilíbrio. Seleciono o flash do aparelho, sou testemunha da resistência carioca. O clique vem com um sorriso de paixão, amor por esta cidade, Rio de Janeiro.

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