Leda Nagle: Regras? Leis? Pra quem?

Mais tarde tem outro pôr do sol. E outros aplausos. As regras não serão cumpridas, nem fiscalizadas

Por O Dia

Rio - Dormi com a bela imagem do pôr do sol no Arpoador. Palmas para o sol, alaranjado dominando o mar, a terra, as centenas de pessoas na areia e nas pedras de Ipanema. O Rio é lindo, de verdade. Tudo é bonito, o céu, o mar, o verde, a maneira como os cariocas e os visitantes lidam com o verão, mesmo escaldante, mesmo desconfortável e definitivamente belo. Pobres, ricos, gente de bem com a vida, gente ressentida, todo mundo parecia gostar. A noite chegou e encontrou namorados felizes, beijos intermináveis, surfistas recolhendo as pranchas, gente bonita e gente feia se encontrando e se misturando, partilhando a festa.

O vereador/professor veio me apresentar o marido, falou dos 15 anos de casamento, das três crianças adotadas por eles, na cidade de Arcos, interior de Minas. Uma história de amor feliz como o pôr do sol. Acordei com o episódio da Linha Amarela. A beleza da véspera deu lugar à dor de uma força avassaladora. Quanta tristeza! Quanta irresponsabilidade! Quanto absurdo! A dor da mãe que viu o filho ser lançado da passarela não vai passar nunca. Assim como as dores das outras perdas também não passarão.

Viver é muito perigoso em qualquer parte do planeta, mas no lindo Rio as pessoas detestam cumprir as regras, as normas, e tornam o perigo parte do cotidiano que já é complicado, que convive com os absurdos trens da SuperVia, com os tiroteios que insistem em acontecer nas chamadas áreas pacificadas e fora delas. O caminhão não pode transitar antes das dez da manhã. Mas transita. A caçamba não pode ficar levantada. Mas fica.

As passarelas têm placa falando da altura permitida. Quem se preocupa? Os bueiros não deveriam explodir, mas explodem. Os ciclistas reclamam que não são respeitados. Mas também não se dão ao respeito. Naquela manhã, com a televisão transmitindo ao vivo a tragédia da Linha Amarela, a ciclista avança o sinal em frente à Igreja da Paz, em Ipanema, com sua bicicleta moderna, levando uma criança na garupa.

Passa como se o sinal fechado não existisse, como se ele não fechasse para ela. Na Visconde de Pirajá, em Ipanema, gente dourada de férias e entregadores de farmácia ou de pizza se acham no direito de andar de bicicleta na calçada, como se fosse ciclovia. No asfalto de São Conrado dezenas de jovens, queimados de sol, sem camisa, deslizam nos seus skates desafiando os carros nas noites mal iluminadas. Regras? Normas? Leis? Existem? Pra quem cumprir? Perigo? Pra que pensar? Mais tarde tem outro pôr do sol. E outros aplausos. As regras não serão cumpridas, nem fiscalizadas. Vida que segue.

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