Por tamyres.matos

Rio - Desfilando no ensaio técnico pela Mangueira, vi a maravilhosa mestra Rosa Magalhães se aproximar, trazendo nas mãos um ramo de flores. Imediatamente me ajoelhei como todo súdito diante de sua rainha amada e admirada, ganhei as flores e tentei levantar. No meio da subida, pernas bambas, voltei ao ajoelhamento. Segurei nas mãos dela, tomei impulso, e tentei subir pela segunda vez. Tremi e voltei. A professora me olhou com cara de “ferrou, Milton, não tenho forças para te levantar”.

Luzes da Sapucaí, as duas arquibancadas lotadas vendo meu esforço, e na minha solidão, ali percebi que a cabeça raciocina como um serelepe trintão que dava cambalhotas, mas o corpo é de um 5.2, que tem se levado ao limite da exaustão e trabalho, e que até aquele momento ainda não tinha a consciência de que a catraca rodou e a fila andou. Um rapaz, apoio de destaque, vendo meu sofrimento, que durou 5 segundos eternos para mim, me levantou. Será que foi assim que Joãosinho Trinta entortou?, pensei eu diante de meus limites, com os quais terei que conviver. O ser humano precisa admitir que não funciona como antes, perceber-se outro, com menos força e disposição.

Trabalhando demais para levantar o show de Dudu Nobre no Vivo Rio, dia 27, quando ele cantará os mais lindos sambas enredos de todos os tempos, comecei a abrir malas de antigos acervos de shows de carnaval pelo mundo. Encontrei uma mala fascinante, abarrotada de faixas de misses. Decidi usar a faixa de Miss Brasil as 9 no Ensaio da União da Ilha do Governador, e as 11 horas da mesma noite, na Mangueira, eu usaria a outra faixa de Musa do Carnaval do Rio. Deboche, crítica, bom humor, vontade muita de cair na gandaia. E a Praça da Apoteose a gritar: “Menos, criatura, menos... Se vai, racha!”.

E antes que eu rachasse, o dia em que o destino te demonstra por A mais B que você já não é mais o mesmo. Como disse a vocês, desde criança sempre fui assolado por duas certezas, que me dão alô todas as manhãs: uma, de que envelhecer é inevitável, e outra, um pouco mais terrível, de que uma desgraça pode sim acontecer comigo ou com alguém que amo, muito próximo. Sempre me espanto com as pessoas que dizem “a gente nunca pensa que vai acontecer com a gente”.

Pois eu, ao contrário, infelizmente sempre achei que eu posso estar sim, passando de carro pela Linha Amarela, no exato momento em que aquela passarela desabou sobre os carros. Que bom que até hoje estive imune a desgraças, mas que a tal velhice pediu licença para se instalar, ah isso pediu. Bem-vinda querida, e Deus me dê sabedoria para não ir além do possível.

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