Jaguar: Eu não sou eu

A minha cabeça não parece uma melancia cor de rosa, com um nariz em forma de batata

Por O Dia

Rio - Outro dia eu flanava pela Zona Norte do Leblon, entre a Selva de Pedra e a Cruzada São Sebastião (a Zona Sul, onde moram os bacanas, fica no outro lado do bairro e começa na Dias Ferreira). Um cara passou por mim e disse: “Jaguar, você deve ter histórias incríveis para contar.” “Tenho. O problema é que não me lembro da maioria delas.” Aí, eu vou inventando e acabo acreditando no que digo e escrevo. Na verdade sou uma invenção da minha mente doentia, a começar pela minha autocaricatura, que não tem nada a ver com o Jaguar que está digitando esta crônica.

O falso Jaguar e o verdadeiroReprodução

A minha cabeça não parece uma melancia cor de rosa, com um nariz em forma de batata. Comparem a foto com a caricatura: são ou não são completamente diferentes? Apesar de ter jurado nunca mais dar entrevistas, eles, os coleguinhas jornalistas, às vezes me pegam de guarda baixa e acabo marcando uma gravação. A última foi para a revista ‘Efe’, da qual nunca ouvi falar.

Fiz a mesma pergunta que você também faria: “Efe?” “É, Efe, de ‘f*da-se’. A sugestão foi do Allan Sieber, que trabalha conosco.” Aí topei; ele pode não ser o maior cartunista do mundo, mas é o mais tatuado. O cara parece um tapete persa ambulante. A moça — Nina é o seu nome — poderia ser minha bisneta, parece um querubim escatológico. Atrás dela vieram sete caras — incluindo o tapete persa — e outra mocinha. A primeira pergunta: “É verdade que você matou um cara?” “Bem, em 1951, quando passei meses na Amazônia...” “Não, estou falando do negão que você matou com uma pedra no Morro da Urca.” “Então você matou dois?” Aproveitei para acrescentar mais detalhes aos meus dois nefandos crimes. “Vê lá se vão me arrumar encrenca com essa entrevista, hem?” “Não tem problema, já prescreveram”, garantiu um dos entrevistadores. Tive que me segurar para não contar o meu terceiro assassinato, o do grande amigo e ator incomparável José Lewgoy (minto, só comparável a Peter Lorre e Mischa Auer).

Acho que fui o último a vê-lo em vida. Estava nas últimas e me disse: “Jaguar. Tudo o que eu queria antes de morrer era comer o cachorro-quente do Au-Augusto, de que você falou numa crônica.” Para vocês entenderem melhor: Lewgoy era um requintadíssimo gourmet. Peguei um táxi, comprei o cachorro-quente no Leblon e voltei para o hospital em Botafogo. Às escondidas, passei o embrulho e ele se trancou no banheiro. Morreu horas depois, mas realizou seu último desejo. É claro que tudo isso que contei é mentira deslavada, alguém duvida?

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