Ricardo Mezavila: Sem ter com quem discutir

Em tempo de pouca conversa e muito teclado, começo a sentir falta das discussões públicas, do calor de um debate informal, da palavra cuspida em cima de uma mesa úmida de cerveja

Por O Dia

Rio - Diz o senso comum que não se discute futebol, política e religião. Na contramão do senso, se alguém me encontrar discutindo em voz alta, principalmente na rua, pode ter a certeza de que estou quebrando essa regra comum. Como disse Nelson Rodrigues: “Das coisas menos importantes, o futebol é a mais importante”. Ao contrário do que muita gente pode pensar, a rua é o melhor palanque para a gente expor o que pensa, mesmo correndo o risco de ser ignorado e ficar falando sozinho.

Em tempo de pouca conversa e muito teclado e touch screen, começo a sentir falta das discussões públicas, do calor de um debate informal, da palavra cuspida em cima de uma mesa úmida de cerveja. Também deixo minha digital em teclas frias que procuram por letras fixas, mas prefiro as palavras com o som de voz, que provocam expressões variadas e que, dependendo da intensidade, é como um golpe certeiro dentro de um octógono UFC.

A minha geração cresceu ouvindo os pais, tios e vizinhos conversando; cresceu brincando na rua e inventando brincadeiras novas; cresceu em uma época em que palavras eram censuradas, mas que, nem por isso, os mais velhos deixaram de pronunciá-las. Crescemos gostando de conversar, de ler e escrever, talvez a proibição tenha fomentado a curiosidade e, como tudo o que é proibido, desperta o interesse.

Na atualidade o politicamente correto invadiu as salas frias das mídias sociais, tem gente amando mais o seu bichinho do que alguém da sua espécie, talvez porque o animalzinho não seja um contestador e aceite a omissão do seu dono em relação aos problemas da sociedade. Outra coisa, tem gente que só opina depois de consultar o Google, quer dizer, pesquisar é melhor que pensar.

Hoje ando um pouco calado, falando menos que antes. A gente precisa viver a época atual que é menos moleque do que fomos, menos criativos e mais individualistas. Não consigo imaginar o show ‘A noite do amor, do sorriso e da flor’ ficar famoso só porque teve milhões de acessos no YouTube e curtidas no Facebook. Os universitários que pararam o trânsito em frente à faculdade de Arquitetura, e nem tinham tantos carros como hoje, e lotaram o anfiteatro, não precisaram marcar para dar um ‘rolé’, era conversando pessoalmente que a gente se entendia.

O preço que pagamos pela tecnologia é esse vazio, essa falsa amizade que construímos por trás dos teclados. Eu mesmo tenho uns quinhentos ‘amigos’ virtuais que, se sentarem ao meu lado, não sei quem são.Tudo bem, precisamos ‘evoluir’, aceitar as respostas e os olhares escondidos dentro de uma polêmic. Senão, periga ficarmos sentados à beira do caminho com uma caneta, um caderno e sem leitores. E, o pior, sem ter com quem discutir.

Presidente da Casa do Menor Trabalhador

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