Karla Rondon Prado: Pequenos prazeres

‘Existe, sim, uma forma de leveza e de graça no simples fato de existir, que vai além das ocupações profissionais’

Por O Dia

Rio - O que faz a vida valer a pena? Ao listar as respostas para essa pergunta, Françoise Héritier virou best-seller na França com ‘O Sal da Vida’, que saiu no Brasil em dezembro pela editora Valentina. Está indo para sua quarta tiragem e entrou nas listas dos mais vendidos da ‘Veja’ e do ‘Publish News’. É sucesso também na Itália, Inglaterra, Japão, Portugal, Espanha e Alemanha. Mas não foi por essas credenciais que cheguei à leveza da obra da antropóloga francesa e, sim, através de uma amiga leitora, que no fim do ano me falou: “Você precisa ler ‘O Sal da Vida’, tem tudo a ver com o que você escreve!”.

Só agora pude ler o livro, que em sua capa se apresenta como sendo “para sorrir, se emocionar, recordar e viver”. Recomendo a leitura de apenas 100 páginas que podem ser devoradas numa tarde, junto com sua fruta preferida e as suas próprias recordações de vida.

Fiquei feliz ao perceber na lista da autora vários temas e sensações já explorados por esta coluna, como o conselho de ouvir e apreciar o silêncio e a descrição sensorial diante de vivências, gostos e texturas. Quando convenci o editor a me dar este espaço, meu argumento foi simples. Eu só queria poder falar sobre relações humanas, dar um ponto de vista sempre otimista para os acontecimentos e tentar fazer minha parte para tornar o mundo, meu e dos leitores, mais brando. A intenção não era parecer culta, ou falar de política ou ficar importante. Mas “fazer alguma coisa”. A essência estava justamente no exercício diário, e difícil, da simplicidade. Não ceder nem desviar o foco. Então muito me alegrou que uma professora tão respeitada, que sucedeu o filósofo Claude Lévi-Strauss no Collège de France a pedido do próprio, tenha virado uma supervendedora de livros priorizando as coisas sutis da vida. Diante do momento atual, deveria ser tendência.

O texto começa em resposta a um cartão-postal que ela recebera de um amigo dizendo que estava em uma semana “roubada” de férias . E nos leva a refletir que somos nós mesmos, com nossas obrigações diárias, que roubamos a nossa própria vida. Convido a uma meditação, com as palavras da autora: “Existe, sim, uma forma de leveza e de graça no simples fato de existir, que vai além das ocupações profissionais, além dos sentimentos poderosos, além dos engajamentos políticos e de todos os gêneros, e foi unicamente isso que eu quis falar. Sobre esse pequeno plus que nos é dado a todos: o sal da vida”. O que tempera a sua existência? Comece a pensar.

E-mail: karlaprado@odia.com.br

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