Moacyr Luz: Carnaval, doce ilusão

O Rio de preços à altura dos carros alegóricos está fantasiado de ‘Homens Trabalhando’

Por O Dia

Rio - O Carnaval batendo à porta, nostalgia e saudade na mesma alegoria. Tempos de tirolês, índio americano, o pirata da perna de pau pisando nos confetes das batalhas de salão. Eu tremia de medo quando ouvia a bexiga do Clóvis estalando na calçada da minha infância. A inocente máscara negra cobria a timidez foliã perto de beijar a colombina. História, as saturnais romanas no abre­alas de falsos seios do bloco das piranhas.

Canal aberto, a tevê transmite o Concurso de Fantasias. Paetês, plumas e proibidas penas de pavão adornam o elmo de Bornay na invencível barra de pedrarias. Tempo real, sensação de câmera lenta, os jurados de smoking dão notas diante de estáticos sorrisos maquiados.

Matinê, os salões enceravam o piso social com os pés juvenis até brilhar no sensual baile de umbigos e purpurinas; a pele refletida no ouro bronzeado do sol carioca, suor de apaixonados se abraçando ao som de Cidade Maravilhosa.
Seria melancolia?

Amanhã, quando o Simpatia é Quase Amor cortar as ruas da Zona Sul, um pouco de passado emerge em amarelo e lilás. O bloco se concentrando no pequeno trecho da General Osório onde cabiam todos, bateria e componentes. Bebia­se algum chope em copos de vidro, enquanto os primeiros versos do samba eram decorados.

A mesma calma do corso da Rio Branco repete a marcha no trajeto combinado. É a burguesia de Ipanema dando o ar da graça nesse quesito. Aliás, nas comemorações dos cinquenta anos de “Aquarela Brasileira”, obra prima do imortal Silas de Oliveira, assisto a um antigo vídeo da tradicional agremiação da Serrinha, o Império Serrano. Os passistas evoluem com o coração.

Pandeiros giram no dedo do ritmista de joelhos à mulata da comunidade. Roupas de Veneza na estiva do Cais do Porto. Quesito “amor ao samba” — Dez! Nota dez!

O Rio de preços à altura dos carros alegóricos está fantasiado de “Homens Trabalhando”.
Cones abóboras são transmutados em cordões de havaianos no pescoço do pobre pierrô abandonado.

A cidade pulsa na certeza de que é impossivel recuar. “Não somos bateria”, pensa, entre os entulhos da Perimetral.

Eu corro atrás, na última ala, aquela que varre a ilusão do enredo levando de adereço um descompassado coração.

E-mail: moaluz@ig.com.br

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