Por bferreira

Rio - Não vou falar da obra-prima do baiano Dorival — redundância, já que Caymmi só fez obras-primas —, mas do gaúcho João Saldanha, que também atendia pela alcunha de João Sem Medo. “De novo?”, estranhou Célia. “Não faz muito tempo você fez uma crônica sobre ele.” Não sei se é porque passo todos os dias pelo seu prédio, a cem metros de onde moro, no Leblon. “O pessoal das escolas de samba deu sorte de o desfile ser na Sapucaí e não minha rua. Onde iriam achar rima para Almirante Guíllen?” Além disso, passou recentemente na TV o ótimo documentário de André Iki Siqueira e Beto Macedo sobre ele. Se há um cara que viveu intensamente foi o João. Aprontou poucas e boas, nos anos 30 e 40, nas peladas na areia organizadas pelo lendário Neném Prancha, com a participação do não menos lendário Heleno de Freitas. Numa época em que ainda não tinham inventado os motéis, os dois dividiam o aluguel de uma garçonnière em Copacabana. Detalhe: em cima de uma funerária.

Devia ser o único vizinho que não reclamava, já que a dupla gostava de andar armada e de vez em quando dava uns tirinhos. Mas sempre melhor que as histórias eram os relatos altamente criativos. Como assinalou Nelson Rodrigues: “Os fatos divergem das versões do João Saldanha. Pior para os fatos, porque a versão dele é sempre muito melhor que o fato.” E Sandro Moreira emenda: “Se tudo que o João costumava dizer ter vivido fosse verdade, ele, João, deveria ter uns 250 anos de idade.” Nossos caminhos se cruzaram muitas vezes. Tínhamos namoradas que moravam no mesmo prédio na Djalma Ulrich, em Copacabana.

Ficávamos esperando por elas na sorveteria de uns argentinos na esquina com a Aires Saldanha. Quem visse os dois notórios boêmios chupando picolé àquela hora da tarde levaria um susto. E é sempre de lavar a alma lembrar aquele entrevero do João com o Médici. O ditador queria porque queria Dadá Maravilha na seleção das feras do Saldanha. Comunista declarado, fã confesso de Prestes, já acho incrível que tenha sido escalado para técnico da Seleção de 70, nos chamados anos de chumbo. Aí o Médici meteu o bedelho e mandou convocar o Dadá. A resposta foi na bucha: “Nem eu escalo ministério nem o presidente escala time.” Uma semana depois, foi ejetado da Seleção. Foi substituído pelo Zagallo, que, com sua cabeça de formiguinha, fez o que o homem mandou. Mas o prato já estava preparado pelo João Saldanha. Alguém disse que João foi o machão que Felipão acha que é. Disse-o bem.

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