Por thiago.antunes

Rio - Fiz 82 anos nesta sexta. Com mais de 60 de profissão (se inventar piadas, desenhadas ou escritas, é profissão). Lido ao contrário, 82 é 28 (risos). No domingo passado saiu uma entrevista que dei para ‘O Globo’. A princípio recusei, pra mim quem trabalha em jornal não deve dar entrevista, deve fazer. Mas acabei convencido pela lábia do Arnaldo Bloch. O cara é capaz de vender geladeira para esquimó. Está, pensei, querendo dados para meu obituário.

A propósito, Millôr — sempre ele — tem um texto definitivo sobre esse negócio de ter mais que 80 anos. Transcrevo o começo da crônica ‘Ser Gagá’: “Ser gagá não é viver apenas nos idos do passado: é muito mais! É saber que todos os amigos já morreram, e os que teimam em viver são entrevados (...) Pensando o dia inteiro em como seria bom ter 30 anos ou, vá lá, 40, ou mesmo, ó Deus, 60. É ficar olhando os brotinhos que passeiam, com o olhar esclerosado, numa inútil esperança.

É ficar aposentado o dia inteiro, olhando no vazio, pensando em morrer logo, e sair subitamente, andando a meia hora que o separa dos cem metros da esquina, porque é preciso resistir. É dobrar o jornal encabulado, quando chega alguém jovem, mas ficar olhando de soslaio para os íntimos da coluna funerária.” O Millôr devia estar de sacanagem ao fazer esse retrato tão sombrio da própria velhice. Ou então era um grande fingidor (licença, Fernando Pessoa). Era o ator principal dos papos de sábados no Porcão, diante de uma plateia privilegiada de amigos que riam sem parar das suas tiradas.

As ideias jorravam torrencialmente. Quantas foram aproveitadas? O que se perdeu daria para fazer uma obra tão rica quanto a que deixou. Como ele, fico também olhando os brotinhos (elas sabem o que significa a palavra?) passeando no Leblon. Não “com uma inútil esperança”, mas curtindo minha invisibilidade. Pois é, descobri que nós, velhos gagás, somos invisíveis. Por exemplo, podemos andar na rua com a braguilha aberta que ninguém repara.

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Arduíno Colasanti foi embora. Cara tranquilo e gentil. Na areia do Arpoador, nos anos 60, era difícil dizer quem era a moça mais formosa. Mas, entre os marmanjos, uma unanimidade: Arduíno era o nosso deus grego. E acrescentávamos (com baita inveja): mais bonito que o Paul Newman. E ainda por cima namorava, nada mais nada menos, que a solar Leila Diniz. Aquela era a Ipanema dourada do Píer. Hoje é a empoeirada do Tapume.

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