Por bferreira

Rio - Num dos últimos protestos de rua no Rio, um grupo de manifestantes ateou fogo a jornais, num deliberado ataque contra o que chamavam de “imprensa fascista”. Em dias de Carnaval, tende-se a minimizar ou mesmo a esquecer a cena. Mas a iniciativa precisa ser alvo de profunda reflexão. E rapidamente chega-se a um questionamento: “fascistas” não seriam justamente os que destroem publicações por causa das ideias que contêm?

O expediente da fogueira remete a passagens pouco saudosas da história. Existiram as chamas que incineravam livros que não seguiam doutrinas, mas houve muitas outras formas de cerceamento da informação, quer pela censura prévia nas redações, quer pelo controle da venda de papel-jornal, quer pela perseguição sistemática a grupos de mídia — estes dois últimos, aliás, são contemporâneos e se observam não muito longe do Brasil.

Quando um grupo insiste na intolerância e defende o fim de jornais, corre-se o grande risco de dar à luz oportunistas que se beneficiam da falta de informação. Ainda é nebulosa a gênese dos protestos de mascarados que atiram morteiros a esmo, com uma clara motivação política. Radicais dizem tratar-se de “mídia golpista e parcial”, como se eles tivessem apresentado plataformas plausíveis para produzir e disseminar informações equilibradas e isentas.

Não é queimando jornais que se contestam versões. A fogueira, símbolo de despotismos, jamais permitirá diálogo. É com diversidade de informações e pontos de vista que a democracia se sustenta. Dela advêm debates e reflexões. É legítimo e fundamental haver discordâncias — e elas só têm plena voz se houver liberdade de imprensa. Ninguém pode temer expressar-se com medo de fogueiras, símbolo de governos que se colocavam contra os cidadãos.

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