Karla Rondon Prado: O preço da fantasia

São dias de festa. Hora de calçar a sandália de prata e sair por aí. Vestir um short bem curto, não importa a idade

Por O Dia

Rio - Adorava aparecer e interpretar, visto que aos 4 anos já era incentivada a contar para as visitas a história de Dona Baratinha. Numa dessas, foi aumentando o repertório e aprendeu com a mãe a cantar a ‘Turma do Funil’. Na hora da risada na letra, empenhava-se engrossando a voz para o “Hahaha... mas ninguém dorme no ponto...”. O “hahaha” impostado e grave era o clímax. Tanto fez que conseguiu da banda que animava o baile de Carnaval um convite para subir ao palco na marchinha. Com o microfone na mão, era a própria Carmen Miranda mirim. Cantou nas três matinês.

Talvez tenha sido no mesmo ano em que a mãe atendeu seu pedido de inscrevê-la naqueles concursos de fantasias rococós. Ela, uma colombina estilizada, espécie de pequena Miss Sunshine do filme. Toda pobrinha desfilando feliz entre aquelas meninas com saias armadas, plumas e paetês. O concurso era sério e, diante da situação, os jurados se viram obrigados a inventar um prêmio de Miss Simpatia, fazendo a desinibida voltar ao palco para distribuir sorrisos com seu collant de apliques e saia de tule. Vestindo a fantasia de estrela.

E o que mais esperar do Carnaval? Festa lúdica. Os implicantes de plantão já deixaram a infância se diluir faz tempo, ignorando a arte de poder ser criança. É época de folia. Máscaras toscas e serpentinas enfeitam as vitrines das lojinhas de rua que resistem; machão se veste de Pedrita no mercado; um grupo samba animado com uma melindrosa num obscuro bar de esquina, quando você está voltando do hospital. Aperto no coração ao entrar a madrugada com o país de “altos”. Alívio e emoção com os desfiles na Sapucaí; os comentários de todo ano — que a gente acha que um dia vai entender —, como por que, meu Deus, os carnavalescos são sempre megalomaníacos e fazem os carros maiores que o espaço que eles têm pra passar, perdendo pontos.

São dias de festa. Hora de calçar a sandália de prata e sair por aí. Vestir um short bem curto, não importa a idade. Pintar o olho, seduzir, sentir-se rainha de bateria, admirá-las. Reclamar do tamanho dos blocos. É Carnaval. E existe criança por perto, além de dentro de você. Um bebê que pode ser um pequeno sultão, um gracioso palhacinho ou um estiloso Superman. Com olhos curiosos, vê a alegria de tantos personagens ao redor. Tem fada, bailarina e músicos com chapéu de pirata. Como num sonho bom, começa a aprender o valor da fantasia. Sem ela, não tem Carnaval na vida. E a ilusão tem sempre o seu valor.

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