Fernando Molica: O Carnaval que já recomeçou

A festa ficará dentro de cada um, hibernando em meio a planos para o ano que vem e balanços de perdas e ganhos

Por O Dia

Rio - A passagem do último componente da Unidos da Tijuca marcou, na manhã de ontem, o início do Carnaval de 2015. É até engraçado falar assim, destacar que o fim gera o recomeço. Mas é assim mesmo, rituais — e os desfiles representam um grande ritual —, são cíclicos, não têm começo nem fim, giram num eixo particular que ajuda a marcar a vida de todos nós. Transmitem alguma segurança, sabemos que daqui a um ano, as escolas estarão de volta aos maior dos palcos.

A ideia de ciclo ajuda a relativizar a euforia dos campeões — a cada dia que passa se aproxima a hora de colocar o título em jogo — e a aplacar a dor dos derrotados e injustiçados; a contagem regressiva para a hora da virada começou. Derrotas, como frisou Carlos Drummond de Andrade em crônica sobre a eliminação do time brasileiro em 1982, são instrumentos de renovação da vida, nos levam ao começar de novo.

Não sabemos como será o amanhã, mas temos certeza de que haverá desfile. Para a grande maioria, o Carnaval só voltará a dar sinais de vida lá para janeiro, quando as quadras das escolas voltarem a ficar lotadas. Mas a festa ficará dentro de cada um, hibernando em meio a planos para o ano que vem e inevitáveis balanços de perdas e ganhos, melhores e piores momentos, amores e desencantos, beijos dados e perdidos.

Nos próximos dias, as dicussões em torno dos desfiles irão diminuir nas conversas de bar e na internet, ficarão assim como aquele confete encontrado no fundo do tênis, a purpurina que, uma semana depois da festa, teima em brilhar num canto do rosto da moça. Mudarão de assunto quase todos os que tanto falam sobre a criatividade ou mesmice do Paulo Barros, as cuecas da Vila e a crueldade com o Império da Tijuca. Pela frente temos Libertadores, Copa, eleições (e imposto de renda, engarrafamentos, a barca que vai enguiçar, o metrô que ficará superlotado, o trem que deixará muita gente na mão, o mês que teima em durar mais que o salário).

Mas, enquanto isso, o Carnaval de 2015 estará sendo gestado. Fantasias largadas na dispersão logo ganharão nova vida em pequenas escolas de samba do Rio ou do interior. A alegoria que deslumbrou tanta gente virou passado, aquela mesma estrutura ganhará novos formatos e cores. Silenciosos, os artistas do samba começam a preparar a próxima festa, a dar forma aos sonhos de rei, de pirata e jardineira, como cantou Martinho da Vila. Desde já agradeço a todos eles, que tanto colaboram para deixar minha vida mais bonita e feliz, pela beleza de festa que, sei, teremos em 2015.

E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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