Por thiago.antunes

Rio - A Passarela produz em mim a magia do lirismo; sou sempre pego no redemoinho dos olhos da outra esfera, quando vozes interiores me tomam e depois me largam. Foi o ano de dois encontros, no profundo de um tempo da delicadeza.

Numa frisa com quatro bandeiras, lindas e penduradas cuidadosamente, os seis cinquentões, com corpinho de 35, me chamam para parabenizar. Toco-lhes as mãos, e entro na fina sintonia da experimentação de fraternidade. Dizem que um desfilou comigo na Beija-Flor 94. Outro é salgueirense de chorar; um, Imperatriz; e mais três... não me lembro, e não importa.

Se conheceram nas frisas, há 25 anos, amigos, sem sexo entre eles (isto eu quis saber). Desde lá, compram a mesma frisa no mesmo setor, cada um de um estado. Estão envelhecendo juntos, e se a escola de um ganhar, este paga o champagne. Viram o país mudar, e mudaram eles e os desfiles. Estão saudáveis, sorridentes, pois, apesar da vida ingrata de 360 dias, os outros cinco são separados anualmente para o prazer absoluto e a celebração de viver.

Vi a peça de teatro, com o grande telão da arquibancada por trás e o cenário da frisa, com os seis atores dentro, comentando suas vidas, e um país olhado pela ótica da folia. O sétimo personagem da comédia dramática sou eu, que no prólogo faz a cena das perguntas, e deflagra as respostas e o enredo. Corta. Terça feira fui reverenciar as crianças, porque sou dos Erês.

No camarote da Liesa vi um casal de irmãos pequeninos, elegantemente vestidos pelos pais suburbanos e maravilhosos (ele veterinário de Madureira), rodopiando de mestre-sala e porta-bandeira, para o amadíssimo presidente Jorge Castanheira e sua Patricia. Eu também beijei a bandeira da peruinha de 5 anos, que era chiqueza pura, e o fofinho de 10 anos era paixão por proteger e reverenciar a dama. Não quis saber os nomes, mas parti para a concentração para pedir a algum presidente que os dois viessem rodopiando pela passarela, por mim apresentados.

Um sonho, uma possibilidade, até que o Golfinhos da Guanabara disse sim. Voltei, fiz os dois pularem a grade (os pais em estado catatônico de choque), dei-lhes as mãos, e parti com meu exército Brancaleone. Cada vez que virávamos para a arquibancada e os aplausos explodiam, alguma bondade do Senhor Olorum ali se fazia presente.

Duas crianças ovacionadas em sua pureza e destino. Foram dormir com as emoções inesquecíveis, eu também me recolho num canto de minha alma, onde repousa a felicidade africana que mora em mim, pois sei que daqui a anos, eu velhinho, beijarei de novo a bandeira destes dois, estrelas.

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