Por bferreira

Rio - Por trás de um discurso que negava a existência de preconceito racial, o Brasil sempre conviveu com um racismo enrustido. Era um pesado tributo que pagávamos a um passado de escravidão e à ausência de política de reintegração dos ex-escravos na sociedade. Esse quadro contribuiu para que permanecesse vivo um tipo de racismo mascarado, muitas vezes ignorado por não se manifestar de forma aberta e agressiva, como ocorria em outros países. Mas, por incrível que pareça, esse quadro parece estar mudando. E para pior. Tal qual em outros países, começam a surgir aqui manifestações explícitas de racismo no futebol.

Quando, no dia 12 de fevereiro, o jogador Tinga, do Cruzeiro, foi hostilizado por ser negro e comparado a macacos numa partida pela Copa Libertadores em Huancayo, no Peru, houve protestos no Brasil. Muitos exigiram que a Conmebol, que organiza o torneio, punisse o time peruano cujos torcedores tiveram a manifestação racista. Nada foi feito pela entidade.
Na ocasião, muitos dos que condenaram o episódio afirmaram que, no Brasil, eles não aconteceriam.

Poucos dias depois, porém, foram desmentidos. Duas manifestações semelhantes aconteceram em curto espaço de tempo: o jogador Arouca, do Santos, em partida contra o Mogi Mirim, na cidade do mesmo nome, pelo campeonato paulista, e o árbitro Márcio Chagas da Silva, num jogo em Bento Gonçalves, pelo campeonato gaúcho, foram alvo de manifestações racistas.

De novo, houve críticas na imprensa, mas também, de novo, viu-se a cumplicidade, pelo silêncio, das federações estaduais que organizam os dois campeonatos.

Ora, o racismo é inaceitável. Das manifestações de reacionarismo ela é, talvez, a mais desumana. A discriminação de uma pessoa pela cor da pele deve ser repudiada de forma radical.

No futebol, a melhor forma de extirpar esse câncer é punindo os times. A medida foi tomada para coibir invasões de campo ou agressões de torcedores a jogadores, juízes ou bandeirinhas com bons resultados.

É preciso que os clubes cujos torcedores tenham manifestações racistas percam os pontos em disputa naquela partida e que seus estádios sejam interditados.

Só assim esse câncer será extirpado nos estádios. Mas o ideal é que vivêssemos uma revolução cultural e ele fosse definitivamente eliminado da sociedade.

Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB e da Comissão da Verdade do Rio

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