Por bferreira
Charge do LúscarReprodução

Rio - A propósito do cinquentenário do golpe que está sendo ‘comemorado’ este ano, olhe atentamente a charge do Lúscar. Deveria ter sido publicada no ‘Pasquim’, mas foi vetada pela Censura. Ao fazer uma faxina nas minhas gavetas, achei num envelope, com laudas amareladas do jornal que eram mandadas para serem censuradas em Brasília. A grande maioria adornada de alto a baixo com um X que queria dizer o seguinte: se as matérias vetadas forem publicadas, o jornal será apreendido, e os responsáveis, punidos. Uma curiosidade: o texto de uma alentada entrevista que o ‘Pasquim’ fez com o ator Paulo Cesar Pereio foi integralmente proibido. Cada uma das 30 e tantas laudas foram riscadas linha por linha e depois com um X em vermelho de alto a baixo.

Algumas ficaram rasgadas devido à raiva do censor ao meter a Pilot no papel. Voltando à charge do Lúscar, adoraria saber o que se passava no cérebro (se é que havia) do funcionário da Censura Federal para considerar subversiva a cena do menino que ganhou uma bola de futebol de presente de Papai Noel. O autor, solertemente, estaria tentando insinuar que no Brasil existia desigualdade social, mesmo depois da Redentora? Outra coisa que me surpreendeu: todos os parágrafos de um horóscopo, tipo “o escorpiano tem uma enorme capacidade de trabalho” foram eliminados. Sem nenhum duplo sentido.

Sugestão de pauta para o jornal: descobrir e entrevistar algum funcionário da Censura na época. Se havia critérios, quais eram? Ele se envergonha do seu papel histórico ou se justifica dizendo que tinha que sustentar a família? Ou, muito pelo contrário, se orgulha do que fez? E seus filhos e netos, o que pensam disso? E não venham me dizer que a censura é coisa do passado, morta e enterrada. O ovo da serpente não foi destruído. Mato a cobra e mostro o pau: andam falando em “controle dos meios de comunicação”. Diante dos estrilos de alguns jornalistas, como dizia o lendário Neném Prancha (história do João Saldanha), “arrecuaram os arfe para evitar a catraste.”

Deram uma segurada. Obviamente porque estamos em período pré-eleitoral. Mas e depois da eleição? Quem me garante que, com esse Congresso que temos, não vem aí um baita arrocho na imprensa? O mais preocupante é que muita gente encara a censura como coisa natural. Outro dia publicaram uma entrevista em que esculhambei coisas e gentes. Uma senhora me perguntou na rua: “Você pegou pesado. Como deixaram publicar?” É aí que mora o perigo, minhas senhoras e meus senhores.

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