Por bferreira

Rio - A cor da pele ainda é impeditivo para frequentar shoppings. Triste ironia aconteceu comigo no dia 4, quando eu e minha esposa decidimos assistir a ‘12 anos de escravidão’ no Plaza de Niterói. Pobre de um país que, 126 anos após libertar os negros, ainda se vê amarrado a preconceitos, suspeição e injustiças.

Ao chegarmos à porta do estacionamento do shopping, às 21h30, encontramos três ou quatro ‘seguranças’ que não liberaram nossa entrada. “Aonde o senhor vai?!” Primeiro achei a pergunta desnecessária, mas, como não custava nada, respondi: “Ao shopping.” A resposta veio em forma de nova pergunta: “Fazer o quê?!” Outra indagação desnecessária, mas, como não custava nada de novo, respondi: “Iremos ao cinema”. Confesso que neste momento já sentia um certo desconforto.

Aí veio a pergunta que me fez pensar na minha mulher, na minha neta, nos filhos, amigos e na minha integridade física, antes de responder: “O senhor tem ingresso?!” Respirei fundo. A pergunta era mais uma vez descabida. A sessão seria às 22h25, e eram 21h30. Se quisesse, poderia comprar meu ingresso lá. Mas, em vez de responder, já com o humor bastante alterado, saquei os tíquetes da camisa e entreguei-os na mão do ‘segurança’. Então, como num passe de mágica, permitiram os ‘deuses do Olimpo’ que eu entrasse. Ao chegar à bilheteria, percebi que havia venda normal de ingressos e que a sessão estava relativamente vazia. Procurei então um ‘supervisor’, e outros ‘seguranças’ me respondiam que ele não estava, mas que eu poderia falar com eles mesmos. Não aceitei. Tentei ir à sala dos ‘seguranças’, mas fui desaconselhado pelos próprios, pois ele provavelmente não estaria lá. A raiva me tomava por dentro. Eu me senti desrespeitado.

Até hoje, vários dias após ocorrido, não recebi uma satisfação do Plaza Shopping nem do Cinemark sobre o que ocorreu. Fiquei com a impressão de que a minha sessão de ‘12 Anos de Escravidão’ estava vazia porque a ‘segurança’ do Plaza Shopping Niterói achou por bem só deixar entrar quem já havia comprado ingresso antecipadamente. Se esta ordem não existia, gostaria de saber por que os ‘seguranças’ cobraram de mim o ingresso, se ele ainda era vendido nas bilheterias às 22h. Até porque a cada dia que passa aumenta a sensação de que fui vítima de um racismo obtuso e vesgo. Se for assim, melhor mudar o título do filme para ‘126 anos de escravidão’.

Conselheiro em dependência química

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