Por bferreira

Rio - As imagens chocantes de Cláudia Ferreira sendo arrastada por uma viatura policial por mais de 200 metros no subúrbio carioca remetem, imediatamente, ao caso do menino João Hélio, morto em 2007, aos 6 anos de idade. Na ocasião, o menor estava no carro de sua mãe, que havia sido roubado por bandidos, e acabou sendo arrastado na fuga após ficar com o corpo preso ao cinto de segurança.

Os casos, obviamente, são diferentes. Mas a diferença que mais assusta é a reação da sociedade, que legitima a violência policial. A culpa não é apenas dos policiais que estavam na viatura ou da Polícia Militar, mas de todos nós.

No caso João Hélio, os urros pela implantação da pena de morte, no Brasil, duraram semanas. E ainda não vi uma pessoa sequer pedir o mesmo neste caso. Pelo contrário: antes mesmo de a Justiça se pronunciar, muitos de nós já estamos atenuando a morte de Cláudia Ferreira. Foi uma fatalidade. É assim que chamamos os crimes contra faxineiras negras do subúrbio? Se não for a nossa diarista, pelo visto, sim.

Poderíamos lembrar que a morte do João Hélio — trágica — não deixou de ser uma fatalidade. Ele não foi amarrado ao cinto de segurança e teve o corpo propositalmente destroçado pelos bandidos. Foi uma triste vítima de um roubo.

Cláudia Ferreira, a Cacau, nunca vamos saber ao certo. Os familiares acusam os policiais de terem atirado. Na melhor das hipóteses — e a mais provável — por imperícia, imprudência e negligência. Parece pouco razoável crer em premeditação.

O que piora a situação dos policiais é, primeiro, a forma de prestar socorro a uma vítima inocente — e ainda que não fosse inocente. Ou será que alguém aqui socorreria uma pessoa baleada a jogando na mala do carro? A ação dos policiais mostra o total desprezo pela vida alheia. Total!

Como se não bastasse, como se fosse pouco, a versão policial antes de serem flagrados era singela, quase heroica: eles apenas haviam socorrido uma mulher ferida numa troca de tiros e ela chegou com vida ao hospital, onde veio a falecer. O problema é que não houve troca de tiro. E o hospital também rebateu a versão dos PMs.

Este tipo de atitude causa tanta repulsa quanto o tratamento dado a Cláudia. E o pior é que a gente sabe que tal postura não foi uma fatalidade, mas é quase que hábito entre os nossos muitos maus policiais. 

Nada, no entanto, é mais doloroso que ver a sociedade contemporizar — e quase legitimar — a ação destes PMs. A dor e a indignação são seletivas. E a seletividade é o maior inimigo do bem comum.

Jornalista

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