Por bferreira

Rio - Tudo é o tratamento que se dá às coisas. O programa ‘Chegadas e Partidas’ da semana passada, do GNT, foi simplesmente divino ao tratar de um problema terrível e profundo. Num terreno movediço como aquele, não ser sensacionalista ou piegas era tarefa para poucos. E a maravilhosa Astrid Fontenelle já tinha me feito lagrimar no quadro anterior, quando uma família negra, linda, levava sua garota para partir para o mundo. É um programa gravado no corre-corre do embarque e desembarque do maior aeroporto do Brasil, Guarulhos, e sempre rende ver as cerimônias do adeus e abraços de boas-vindas. E foi de arrepiar a certeza que aqueles pais e irmãos tinham sobre a retidão de caráter da jovem que agora partia. Foi o máximo de emocionante e pensei que dali não dava para passar. Pois passou.

Como a apresentadora sempre faz, ela fica observando e a câmera detalha algo que a impressiona. Pois um rapaz moçambicano apertava um ursinho de pelúcia de forma impaciente, quase aflito. Astrid pergunta por que, e ele explica que está esperando a sogra que traz sua filhinha, doente do coração, para mais um dos inúmeros tratamentos que a garotinha tem se submetido no Brasil. Ele tem muitas esperanças de que as coisas vão se resolver bem, e explica para Astrid que o cordão que ele usa, de onde pendem três bonequinhas de ouro, serão as três filhas que ele sonha ter, portanto mais duas ao lado desta que está chegando de viagem.

Demora, saem todos e as duas não aparecem. Vem o homem da Companhia Aérea e o rapaz gela, de preto fica branco de lívido e diz para Astrid que sente que aconteceu alguma coisa. Eles são levados por intermináveis corredores, câmera atrás dos dois e do funcionário, e Astrid diz que ele não deve trabalhar com a pior hipótese. Ele diz que sabe que tudo deu errado. Até que eles são levados para a porta de vidro onde se lê Posto Médico, os dois atravessam a porta, a câmera fica e se distancia da porta, dando privacidade à indescritível cena de horror pois algo está acontecendo e por coincidência uma câmera está documentando o trágico acontecimento. A câmera está bem longe da porta, quando ela se abre e lá de dentro sai Astrid passada, transtornada, ela faz um não com a cabeça para si mesma, para seus pensamentos, para o inusitado que estava vivendo, quase um pesadelo. Será que ela viu o corpo da criança?, me perguntei eu, mas fui retirado da imersão com a subida das letrinhas, dando por encerrado o drama.

Nenhuma exploração da dor, nenhuma fala, nenhuma necessidade de prolongar, nada. Não faltava nada, e sobrava respeito e excelente jornalismo documental. Uma maravilha de emocional na medida e preciso na hora de deixar cair o pano e encerrar o ato. Parabéns aos envolvidos, o programa que vocês colocaram no ar é matéria inesquecível para todos. Que nos faça refletir sobre estes loucos tempos em que a vida passa tão rápido. Arrasou, Astrid.

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