Por bferreira

Rio - Golpe militar para uns, revolução redentora para outros, o movimento de março de 1964 continua a produzir polêmica no ano do cinquentenário. E isto porque nenhuma época enxerga seu passado de forma inteiramente isenta. O estudo histórico é feito pelos vivos à luz das questões do presente. Por isso, aqueles que se orientam ideologicamente por perspectiva de esquerda carregam nas tintas ao descrever e abominar a memória de 64. Pintam o período militar como regime assassino e torturador, sustentado por meia dúzia de gorilas ignorantes, de orientação fascista. Do outro lado, os orientados por ideologias de direita celebram a revolução como movimento patriótico, desencadeado pelos militares por pressão do conjunto da sociedade brasileira, a fim de salvá-la da ameaçava ateia e coletivista do comunismo.

Na verdade, o regime militar não foi exclusivamente nem uma coisa nem outra. Para desolação dos ativistas de esquerda, o golpe e o regime gozaram de fato de ampla aceitação na sociedade. No contexto de um país periférico durante a Guerra Fria, como era o Brasil, os dois lados estavam interessados em modernizá-lo, mas nenhum estava comprometido com a democracia, que já estava portanto marcada para morrer. A esquerda namorava um comunismo de tipo cubano, ao passo que, à direita, havia aqueles que queriam a ditadura de salvação nacional exercida pelos militares, mas também aqueles que se contentavam em dar seguimento à democracia liberal existente, desde que elitista, fechada à participação popular. Além disso, o regime militar brasileiro teve várias características originais, que a tornam única no gênero.

Diferentemente do argentino, o regime militar brasileiro tratou de incentivar a industrialização e a urbanização do Brasil, o que viria a colocá-lo em pouco tempo entre os maiores PIBs do mundo — mas também entre os países mais desiguais do planeta, no que tange à distribuição de renda. Diferentemente do que ocorreu no Chile, os militares brasileiros mostravam certa aversão à exposição nua e crua do poder autoritário e buscaram manter as aparências de um regime liberal democrático, o tanto quanto julgavam compatível com a segurança nacional.

Por isso, impedindo o povo de votar para presidente, deixaram funcionando o Congresso a maior parte do tempo, que contava inclusive com um partido de oposição. As eleições continuaram a ocorrer regularmente, sendo também surpreendente o fato de que, durante os 20 anos do regime, o eleitorado brasileiro tenha alcançado o nível quantitativo das democracias ocidentais, tendo passado de 16% da população para 40% em 1985. O cinquentenário é boa oportunidade para que o leitor aproveite para conhecer o melhor o assunto, ao invés de se deixar enredar pelo clima de Fla-Flu que ronda o assunto e pouco tem a ver com as circunstâncias que o provocaram.

Professor de Política da Unirio e do Iesp-Uerj

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