Jaguar: Somos racistas

Mas nenhum brasileiro admite que é. Veja os casos no futebol

Por O Dia

Rio - Porque somos brasileiros e cada vez me convenço mais de que no Brasil existe o pior tipo de racismo, o enrustido, que não ousa dizer seu nome. Chegamos a um paradoxo: o Brasil é racista mas nenhum brasileiro admite que é. Os recentes casos nos campos de futebol, do juiz lá no Sul, do Arouca e do Tinga, focaram os holofotes da mídia no tema. No caso do Tinga, a TV mostrou torcedores imitando macaco e jogando cascas de banana no gramado.

Então por que a polícia não prendeu na hora os caras na arquibancada, já que racismo é crime imprescritível, inafiançável, hediondo e o escambau? E depois temos que aguentar cartolas e autoridades lamentando e condenando, com ar consternado, o episódio. Na verdade, a repressão é só da boca pra fora, fica tudo por isso mesmo. E ouso dizer que aqui o racismo tem mão dupla. Para exemplificar, repito uma história que aconteceu comigo: fui vítima do racismo tanto de brancos quanto de pretos. Quando morei com uma preta, tive que ouvir do dono de uma grande editora o seguinte: “Queria convidá-lo para um jantar na minha casa, mas por favor não leve sua mulher.” Na época (começo dos anos 70), eu estava na pior, vivia de biscates.

Morava num ‘subúrbio’ de Caxias, numa favela chamada Lote 15. Era discriminado pelos meus vizinhos, todos crioulos. Para eles eu era o branco azedo. O racismo no Brasil tem mão dupla. Acaba sobrando até para os macacos, que não têm nada com isso e viraram sinônimo de insulto em campo de futebol. A Sociedade Protetora de Animais devia protestar em defesa dos nossos ancestrais. Por falar em crioulo, é uma palavra que sempre usei afetivamente, mas agora é considerada politicamente incorreta. Em resumo, racista. Isso me faz lembrar o samba ‘Quatro Crioulos’, do show ‘Rosa de Ouro’, de 1965 (atenção, pauteiros, ano que vem fará 50 anos), do admirável Hermínio Bello de Carvalho. Segundo o Tio Guga, como chamo o Google, é — pasmem — de autoria de Nara Leão. A moça da Zona Sul fez um samba que poderia ser assinado pelo Cartola.

Cito o começo da letra: “Eram quatro crioulos inteligentes/ rapazes muito decentes/ fazendo inveja a muita gente/ muito bem empregados/ numa diretoria/ educados e formados em Filosofia/ e quando chega fevereiro/ ver os crioulos no terreiro/ é sensacional/ no dia de Carnaval/ são figuras de destaque/ no desfile principal/ esses quatro crioulos/ são o orgulho da gente de cor.”

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