Marcus Tavares: O lugar da denúncia

Se não tivéssemos acesso às imagens do cinegrafista amador que filmou a cena trágica e forte da auxiliar de serviços gerais Claudia Ferreira da Silva, de 38 anos, sendo arrastada por viatura da PM, o caso não teria a repercussão que teve

Por O Dia

Rio - É fato. Se não tivéssemos acesso às imagens do cinegrafista amador que filmou a cena trágica e forte da auxiliar de serviços gerais Claudia Ferreira da Silva, de 38 anos, sendo arrastada por viatura da PM, o caso não teria a repercussão que teve. Provavelmente, o episódio passaria despercebido. Os policiais não seriam autuados, a família não saberia detalhes da morte de Claudia, e o caso não teria o impacto que teve. Seria apenas mais um dos muitos dramas violentos que essa cidade protagoniza. Não foi a primeira vez — nem será a última — que tais imagens gravadas por pessoas comuns ou por jornalistas ganham espaço na imprensa. E o acervo não para por aí. Na dita ‘Cidade Maravilhosa’, ainda existem cerca de 700 mil câmeras de segurança espalhadas pelas ruas, bares, restaurantes e condomínios. O número equivale a um equipamento para cada nove cariocas.

Enquanto as imagens são produzidas em nome do interesse público, da cidadania e do dever cívico, considero legítimo (embora saibamos o uso, às vezes, sensacionalista). O próprio código de ética da profissão do jornalista, no Artigo 11, abre brecha para a utilização, por exemplo, das câmeras escondidas, que podem ser usadas “salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração”. Mas quando as imagens não são captadas por jornalistas, mas, sim, por cidadãos comuns, elas têm o mesmo objetivo? Penso que deveriam. Mas não sei se isto acontece ou se acontece só em nome do dever cívico, digamos assim.

O vídeo a que assistimos — da auxiliar de serviços gerais sendo arrastada — é atribuído a um cinegrafista amador. Diferentemente de outros materiais, este não traz o nome de quem filmou, só de quem editou as imagens. Muito provavelmente, o autor pediu anonimato, quem sabe por medo de represália. Justo. No entanto, tais imagens chegaram à imprensa por uma questão de cidadania e denúncia ou pelo interesse econômico que a ação pode render?

Sabemos que, na maioria das vezes, a imprensa paga para ter acesso — com exclusividade — a tais imagens. Sem dúvida alguma, mais de 90% dos veículos de comunicação visam ao lucro. Imagens vendem e muito. Aumentam a lucratividade de jornais e revistas, elevam a audiência e o número de visitas nos sites. Mas ‘ganhar’ em cima das empresas, do drama alheio, do jornalismo de interesse público se justifica?

Tais cinegrafistas estariam reproduzindo o sensacionalismo da própria imprensa? Será que tais cinegrafistas amadores também procuram, antes ou ao mesmo tempo, a polícia ou outros órgãos competentes, quando é o caso, para ceder as imagens, cumprindo com o dever cívico e humanitário? Pelo que parece, a imagem, mais do que nunca, vale mais do que mil palavras.

Marcus Tavares é professor e jornalista especializado em Educação e Mídia

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