Carlos Alberto Cacau de Brito: Ninguém pagou as lágrimas

Ninguém pagou “cada lágrima rolada” daqueles que penaram por sonhar com um país democrático

Por O Dia

Rio - “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...”Muita gente já cantou, com lágrimas nos olhos, este verso de Chico Buarque. Outros o bradaram a caminho da sala de tortura, ou mesmo nas sessões de barbárie total, quando já nem olhos mais tinham para chorar. Estou falando da música de protesto ‘Apesar de você’, lançada em 1970, logo que o famoso compositor retornou do exílio, e o país era presidido pelo general Médici e seu Ato Institucional 5. Tornou-se um hino da resistência à violência e à opressão, ao lado de ‘Pra não dizer que não falei de flores’, de Geraldo Vandré. ‘Apesar’ fala da esperança, da espera e da exigência de um futuro em que aquele “que inventou o pecado, […]que inventou a tristeza, ora, tenha a fineza de desinventar. Você vai pagar e é dobrado cada lágrima rolada nesse meu penar.”

O compositor fala de um projeto futuro, que não se concretizou, especialmente, quando se pensa que o legado dos 21 anos de ditadura civil-militar continua se replicando em muitas delegacias e presídios por este Brasil afora. Sim, estou falando da tortura, este crime hediondo praticado pelos ‘bandidos do bem’. A tortura, que não foi inventada pelos generais do golpe, afinal, remonta aos tempos da escravidão. Mas falo da tortura da ‘Idade Média’ nacional, aplicada como medida repressiva aos opositores do regime em níveis profissionais nunca antes imaginados e com a ‘assessoria técnica’ de militares americanos. As pesquisas revelam detalhes do requinte e profissionalismo com que perpetravam tamanho suplício contra os presos políticos, situações fartamente relatadas pela imprensa.

Hoje a tortura encontra-se institucionalizada no submundo da realidade carcerária brasileira, e isto tem a ver com a ditadura por uma simples razão: a impunidade dos torturadores do regime militar. Ninguém pagou “cada lágrima rolada” daqueles que penaram por sonhar com um país democrático.

Se hoje o Brasil continua convivendo com a arrogância e prepotência de muitos de seus policiais e membros das Forças Armadas, que pensam serem dotados de autoridade e superioridade em relação aos demais cidadãos, reles mortais, devemos ao fato de que estes que estiveram e estão a serviço da cultura da violência acreditam que não estão sujeitos aos mesmos deveres perante a lei. A valorização da farda continua enraizada na cultura brasileira, e enquanto este status não mudar conviveremos com violações dos direitos humanos, mortes não investigadas e pessoas desaparecidas que se somam às longas estatísticas da violência. Maldito legado!

Carlos Alberto Cacau de Brito é advogado e presidente do Movimento O Rio pede paz

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