João Pedro Roriz: A dura dita de hoje

“A democracia só serviu para aposentar os meus heróis.” Essa afirmação é ofensiva para aqueles que sobreviveram aos tempos de chumbo

Por O Dia

Rio - “A democracia só serviu para aposentar os meus heróis.” Essa afirmação é ofensiva para aqueles que sobreviveram aos tempos de chumbo. São muitos professores, pais e avós orgulhosos que, diante da necessidade de comparação dos tempos atuais com os de outrora, estapeiam o próprio rosto:
— Você não sabe o que fala! Foi nesse rostinho que a ditadura bateu!

Ela continua nos batendo.

Guns n’ Roses, na síntese do termo, na convicção escondida sob o pano de fundo da misericórdia proposta pelos atuais ditadores da paz, demorou 25 anos para lançar o seu último CD, ‘Chinese Democracy’. A demora me pareceu proposital. Hoje não há mais motivos para atender à neurótica segregação entre Bem e Mal. Ninguém mais fala em capitalismo e socialismo no mundo. Não há mais arregalar de olhos e ranger de dentes em relação a esses termos, e quem ainda batalha nesse campo já morreu e não sabe. Mas existe imensa hipocrisia girando em torno da atual democracia e do ideal de “capitalismo humanitário” que tanto ouvimos falar. Muitos confundem esse ideal com o populismo. Se todos os brasileiros se tornassem confessos irreparáveis, o partido coração do povo jamais se assumiria como “de oposição” ou “de situação”. Todos seriam “de ocasião”.

Tenho pena dos intelectuais que expiaram durante anos a imposição de uma forma pelo buraco da fechadura e hoje, quando finalmente puderam entrar nesse quarto escuro e acender a luz, descobriram que acabaram exilados em seu próprio país.

Ora... a forma não importa! O que sempre importou foi a ‘fôrma’! E nossos pés ainda calçam as mesmas sandálias do passado. Continuamos facilmente corruptíveis, manipuláveis, preguiçosos e superficiais. Alguns se divertem para descansar do trabalho, enquanto a maioria, viciada em prazer, só trabalha para pagar a diversão histriônica e exagerada dos fins de semana.

Pegamos nossa visão de democracia e nos embebedamos com ela até perder o juízo. Dispensamos o cálice de nossas consciências e urinamos democraticamente nas ruas, quebramos vidraças, traímos nossas mulheres, procuramos heróis no futebol, fazemos ‘uni duni tê’ para apontar os políticos que pagarão pelo erro e escolhemos um, apenas um Amarildo para ser objeto de misericórdia. O “cale-se” gritado por Chico ainda ecoa. E perdemos as nossas desculpas.

João Pedro Roriz é autor do livro ‘Almanaque da Cidadania’

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