Moacyr Luz: Prato feito

A pequena reforma não disfarça a real identidade do estabelecimento, um pé ­sujo de primeira...

Por O Dia

Rio - A conversa varando madrugada, ânimos exalando álcool e certezas, nossa madrinha Beth Carvalho carimba, numa discussão digna de um Mario Filho ainda na geral, o juízo final: “Nada disso! Gastronomia é carioca. Até arroz com ovo é invenção nossa!” O amigo paulista tenta impor uma pizza ao debate, quem sabe, entre costeletas, o clássico virado, tutu e a gema dura, mas, interrompido, engoliu outra verdade, “me escuta, o feijão é carioquinha!” A cena, banalidades na mesa de bar, foi vivida no extremo sul da Presidente Dutra, num bairro boêmio da Terra da Garoa, e já conta uns 15 anos na memória papilar.

O tempo em banho­maria foi embraquecendo meus cabelos, a voz mais grave, a pele quase puruca. Dias insossos, outros tantos apimentados, salivo na festa de lançamento do novo livro do amigo José Trajano, ‘Procurando Mônica’. O banquete aconteceu na Livraria Folha Seca, a carótida interna do Rio de Janeiro.

Me lambuzo de palavras ouvindo ‘crânios’ como Ruy Castro e Calazans. É sábado. O sol cerca o casario da rua predileta do cafuzo Machado de Assis. Procurando um canto pra me encostar, bares e seus cardápios na ponta do giz da tabuleta, me acomodo na Toca do Baiacu. A pequena reforma não disfarça a real identidade do estabelecimento, um pé­sujo de primeira com direito a torresmo na estufa do balcão e cerveja de garrafa no copo americano. Faço uma pausa. Pra mim, um recipiente dessa nacionalidade nasce de papelão, consistência necessária pra proteger a ponta dos dedos do ralo café que ferve completo à última borda.

Já vestido de freguês, peço o cardápio.

“Quer comer um peixe, feijoada? ‘Qué’ pastel de camarão, frango com quiabo? Pede que eu faço!”, sorri o mestre Marquinhos, o dono do pagode.

A cozinha tem as medidas próximas à quiosque de chaveiros, às vezes amolador de facas, troca­se bateria de relógio. Às vezes, bombeiro hidráulico. Continuo:

“Esse peixe...”

“Truta! Faço na brasa. Fiz uma churrasqueira no teto da casa. O carvão tá tinindo!”
Ainda ‘corujei’ a carne assada no prato do Álvaro Costa e Silva, o marechal mais civil das patentes suburbanas. Afilhado do Nelson Cavaquinho, suspendeu um noivado pra velar o mestre de ‘A Flor e o Espinho’.

Aquarela carioca, a crônica reverencia um bem imaterial, o bom humor, último fio de cabelo nesse mar encrespado que ressaca a cidade, um osso duro de roer.

E-mail: moaluz@ig.com.br

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