Por thiago.antunes

Rio - Os resultados da pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgados semana passada estavam errados no que concerne a suposta culpa das mulheres que “usam roupas provocantes”, caso sejam estupradas. A correção foi feita pelo próprio instituto.

Não são 65% dos brasileiros os que acham que a mulher que se veste dessa forma merece ser estuprada. O Ipea informou que o percentual correto é 26%. O erro teria sido cometido na organização dos resultados. E levou à demissão do diretor de Estudos e Políticas sociais do órgão.

Duas conclusões podem ser extraídas daí. Primeiro: um erro grave como este não pode ser cometido por uma instituição séria e respeitada, como o Ipea. Qualquer criança sabe que com números não se brinca. A troca de um algarismo pode levar a uma distorção gigantesca nos resultados.

Segundo: mesmo com a correção, estamos diante de um percentual altíssimo de pessoas com uma tese absurda. De acordo com os novos números, uma em cada quatro pessoas concorda com tal disparate, admitindo que a mulher que usa “roupas provocantes” tem culpa se for estuprada.

A mesma pesquisa mostra, ainda, que 65% consideram que “a mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. Esta resposta desconhece a situação de milhões de mulheres pobres, vítimas de agressão no lar, mas que hesitam em se separar por falta de condições econômicas para seu sustento ou o dos filhos.

Claro que não é aceitável a mulher ser espancada pelo companheiro, mas desconhecer as dificuldades reais vividas por muitas delas é de total insensibilidade. Essas dificuldades muitas vezes fazem com que a mulher conviva com uma situação de opressão até que não a suporte mais, ou que as coisas, de uma forma ou de outra, se acertem. Considerar que a mulher que não se separa depois de agredida “gosta de apanhar” é de uma simplificação que beira o desumano.

Nem toda a população brasileira é formada por pessoas de classe média alta que têm condições econômicas de, no momento em que desejarem, sair de casa e reconstruir a vida. Ou seja, a pesquisa do Ipea (mesmo com os novos números) mostra que o machismo e a insensibilidade ainda são muito fortes na sociedade brasileira. E que precisamos avançar muito na consolidação do processo civilizatório.

Wadih Damous é presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB e da Comissão da Verdade do Rio

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