Por bferreira

Rio - Lembro-me de criança que, quando recebia os ovos de chocolate, no Domingo de Páscoa, logo tentava imaginar o que havia dentro. A grande diversão era procurar quais ovinhos do ninho tinha em seu recheio alguma surpresa. Adivinhar, dividir o ovo ao meio e finalmente fazer a descoberta era muito mais empolgante, até mesmo do que comer o chocolate.

A Páscoa, assim como essa guloseima que a gente abre para ver o recheio, é o próprio ato de renascer. É momento de renovação, renascimento, a transformação daquele pedaço de chocolate numa grande descoberta: o modificar da vida.

Trata-se de momento para revermos coisas, repensarmos o que poderia ser melhor no que somos verdadeiramente sujeitos: as ações de nossa própria existência — o renascimento de sentimentos genuínos, de projetos guardados, cenários passados e mesmo daquela amizade há tanto esquecida. Dentro do ovo há vida.

Não apenas do ovo-invólucro que protege até o nascimento do novo ser, transformação natural da célula em sujeito de novas ações ao mundo; mas também do ovo que simboliza a novidade que se descortina, a mudança. Quando dividido em dois pedaços, se abre à inusitada possibilidade.

A maravilha do renascimento fazendo-se na frente de nossos olhos. A existência simples sendo descortinada num raro momento de ineditismo, para além das coisas de nosso dia a dia, um tempo único e nosso para nos refazermos.

Em todas as culturas, e mesmo para quem não se crê religioso, a chance de um renascimento, figura de linguagem em sua expressão, é o próprio desenvolver da vida, propósito de evolução, da descendência. O refazer necessário ao crescimento e ao passar adiante. Produzir em si aquele algo a mais, que pode ser projetado a todos que nos cercam.

Não há quem não se emocione, ou pelo menos não se contagie, quando vê uma criança abrindo um ovo de Páscoa, nos olhos que ficam grandes à procura do inédito, na satisfação ao descobri-lo e ao redescobrir quantas vezes necessárias, metamorfose da criança em explorador; no adulto em alguém mais evoluído. Permitir-se crescer, e depois renascer e renascer: onda propagada de vida no nosso pequeno mundo.

Ana Cecília Romeu é publicitária e escritora

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