Frei Betto: Páscoa, tempo de esperança

Para Jesus, a nossa salvação decide-se por nossa capacidade de amar no terreno da história

Por O Dia

Rio - A Páscoa é a principal festa das Igrejas cristãs: celebra a ressurreição de Jesus. A nossa fé seria vã se Jesus não tivesse ressuscitado após ser condenado à morte na cruz, como prisioneiro político por dois poderes: o judaico e o romano. Em sua origem, é a grande festa judaica que comemora a libertação dos hebreus da escravidão no Egito, em 1250 a.C., sob o reinado do faraó Ramsés II. Curioso é que, ao contrário das religiões persas e mesopotâmicas, babilônicas e gregas, o Judaísmo e o Cristianismo não celebram mitos, e, sim, fatos históricos.

Os evangelhos registram a presença de Jesus em Jerusalém por ocasião das festas pascais. Foi numa delas, a do ano 30, que ele, preso por blasfêmia e subversão, recebeu a pena capital e morreu crucificado. Tinha 36 ou 37 anos de idade, pois hoje sabemos que o monge Dionísio, o Pequeno, se equivocou, no século 6, ao calcular o início de nossa era. Dionísio não conhecia o zero e está comprovado que, ao morrer Herodes no ano 4 antes de nossa era, Jesus já havia nascido.

A visão do tempo como processo histórico marca profundamente a nossa cultura. A Bíblia herdou-a dos persas e, assim, quebrou a circularidade grega. Três grandes pilares de nossos atuais paradigmas o demonstram: Jesus, Marx e Freud. Todos três judeus. Para Jesus, a nossa felicidade (salvação) decide-se por nossa capacidade de amar no terreno da história. O Reino de Deus não é algo “lá em cima”, mas sim lá na frente, no futuro onde a história atinge a sua plenitude, num mundo livre de opressões, e também o seu limite, pela irrupção da presença divina entre nós.

A Páscoa cristã sinaliza que, malgrado tanta miséria e desesperança, em Cristo temos a certeza da vitória da justiça sobre a injustiça e da vida sobre a morte. Aceitar que “a história acabou” é cair no engodo da eternização do presente: a malhação que nos promete eterna juventude; o apego aos bens como se fôssemos imortais; a acumulação como se levássemos terras e tesouros para o além-túmulo; as drogas como sucedâneo diabólico de uma geração que não aprendeu a sonhar com Jesus, Gandhi, Luther King e Che Guevara.

É isto que a Igreja celebra hoje: Cristo vive, e sua vitória sobre os poderes deste mundo é a garantia de que os sonhos brotados do coração e da fé são semente de “um novo céu e uma nova Terra”, como prenuncia o Apocalipse. E, como diz a canção, um sonho que muitos sonham se faz realidade.

Autor de Um homem chamado Jesus’ (Rocco)

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