Por bferreira

Rio - Não é de hoje que a Páscoa, para muitas pessoas, se resume, simplesmente, à troca de ovos de chocolate. Enquanto o seu significado se esvai, a festa em torno da guloseima parece que cresce a cada comemoração. Anualmente, a indústria divulga um acréscimo em torno de 10% nas vendas. Em 2014, a cena se repete mesmo com o aumento dos preços. Os ovos estão, em média, 6,78% mais caros do que o mesmo período do ano passado. Índice superior ao da inflação.

Nesta semana, percorri algumas lojas e supermercados. O marketing é pesado. Somos instigados — adultos e crianças — a atravessar diversos túneis de ovos, dos mais variados tipos e formatos. O Coelhinho da Páscoa cede lugar para carros, bonecas, garrafas, times de futebol e jogos perfeitamente embrulhados e envoltos por chocolates de diferentes sabores.

A única coisa que não difere são os preços. Como estão absurdamente abusivos. Você já fez as contas? Faça. Compare o preço do quilo do chocolate do ovo com o do chocolate de barra ou do que vem na caixa de bombom. O professor Samy Dama, da Escola de Economia de São Paulo da FGV, contabilizou. A diferença entre o quilo do chocolate do ovo e o da barra é de até 581,29%. Entre o do ovo e o da caixa de bombom, chega a 870,68%. É impressionante. Em sã consciência ninguém compraria.

Então temos lojas vazias? Estoque encalhado? Miragem. As lojas estão surpreendentemente cheias. Filas enormes. Prateleiras vazias. Túneis, aos poucos, sendo descobertos. Lojistas fazendo mais pedidos. Crise? Que crise? Como dizem as redes sociais, é surreal. É um consumismo desenfreado, sem limite. E em troca de quê?

A compra — e o consequente e habitual endividamento no cheque especial e ou no cartão de crédito — acaba acontecendo muito mais por impulso do que por uma ação consciente. Muito mais por modismo do que por uma atitude que representa um significado espiritual, cristão. Se não há este entendimento em quem compra — adultos —, o que dirá nos que recebem — as crianças? Sem reflexão, sem mediação.

Como somos um país que adora títulos, aproveite e anote mais dois: somos o quarto maior produtor de chocolate do mundo e o terceiro mercado consumidor. A indústria informa que o brasileiro come, por ano, em média, 2,8 kg. Quer crescer. Na Europa, o consumo per capita é de 7,5 kg. Não é preciso dizer mais nada, não é?

Marcus Tavares é professor e jornalista especializado em Educação e Mídia

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