Por bferreira

Rio - Gostamos de lembrar dos fatos agradáveis, de alardeá-los em mesas, publicá-los no Facebook — a viagem, o novo amor, um elogio, um campeonato. Mas trancamos na gaveta os episódios tristes, fracassos profissionais, um pé no traseiro, o gol em impedimento feito pelo adversário. O problema é que derrotas nunca são esquecidas, ficam se fingindo de mortas e, de vez em quando, avançam na nossa jugular como um tigre faminto.

Na quinta, li que Gabriel García Márquez havia morrido. Tinha nota para apurar, coluna pra escrever, não dava pra entrar em estágio de velório virtual do querido escritor. Mas os diabinhos da memória trataram de sabotar meu trabalho com a lembrança de uma página infeliz de minha história, episódio — patético na época, engraçado hoje em dia — que teve como protagonista o autor de ‘Cem anos de solidão’.

Aos 24 anos, fui a Cuba cobrir um festival de cinema. O Brasil não havia reatado relações com o país de Fidel, pernoitamos no aeroporto de Lima para pegar uma conexão. O avião com a delegação brasileira ainda foi obrigado a fazer uma escala imprevista no Panamá, onde passamos outra noite. Desembarcamos em Havana dois dias depois de sair do Rio e fomos direto para a abertura do festival.

Cheguei cansado, envergando uma daquelas ridículas camisetas de turista que comprara no Panamá para não chegar em Havana com a roupa que usara por 48 horas. Cheio de disposição — era a primeira viagem internacional que fazia como jornalista —, pisei no Teatro Karl Marx pensando nas futuras reportagens. Nisso, o cineasta Silvio Tendler fez a gentileza de me apresentar ao Gabriel García Márquez.

Cara de enfado, o escritor fingiu um sorriso ao apertar a mão daquele assustado jovem repórter que vestia a camiseta com motivos folclóricos panamenhos. Sem saber o que fazer, fiz o óbvio, de forma desastrada. Com a sutileza de deputado que negocia propina com doleiro ao telefone, balbuciei, em portunhol: “Usted me daria una entrevista?”. Sem largar a minha mão, o escritor pronunciou a palavra que, a exemplo da frase que abre o romance ‘Crônica de uma morte anunciada’, eu jamais esqueceria: “No.”

Fiquei constrangido, irritado comigo mesmo pela proposta feita de maneira apressada, capenga. Mas levar um passa-fora é do jogo, no jornalismo e na vida. Para citar outro trecho célebre de GGM, o cheiro amargo que ficou daquela cena patética ajuda a amenizar outros tantos desejos contrariados. E ainda ganhei uma história para ser contada — vivemos para contar.

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