Leda Nagle: Colocando ordem na desordem

A melhor coisa de guardar são as fotografias. Quando você remexe nelas é uma viagem no tempo

Por O Dia

Rio - Atolada em papéis, recibos, pastas e outras avencas da burocracia, aproveito o feriado para tentar colocar ordem na desordem reinante. A sensação que tenho é de que nunca vou conseguir ter aquela estante perfeita, que vejo nas revistas de decoração, com todos os documentos nas pastas, todas elas etiquetadas para que, a qualquer momento, tudo seja devidamente encontrado, no lugar previsto. Por que é que a gente tem que guardar tanta coisa? Para provar, um dia, que a gente cumpriu as regras, pagou em dia, honrou compromissos? Sei que é por aí mas que é chato pra caramba é.

O pior é que nunca termina. O feriado se vai, tudo parecerá mais ou menos arrumado até passar trinta, sessenta dias e tudo voltará à bagunça de antes. Parece coisa de doido. E é. Na verdade, a gente guarda mais do que deveria. De papéis e documentos a velhos exames médicos, roupas, sapatos e bolsas. Acho que os homens de modo geral conseguem descartar coisas com mais facilidade. Principalmente peças do guarda-roupa.

As mulheres sempre acham que a moda vai voltar, que vão emagrecer para caber naquela peça que não dá mais ou que, um dia, ainda vão usar aquele sapato de salto altíssimo que usaram muito jovens e não dão mais conta agora. Confesso que guardo bolsas. Algumas dezenas delas não uso há séculos. Nem vou usar nunca. E ainda que consiga dar algumas delas todo ano, acumulo uma quantidade absurda e desnecessária e não posso ver uma, de cor diferente, que fico seduzida.

Voltando aos velhos papéis, hoje em dia , com a tal da quitação anual, dizem advogados, a gente pode dispensar muitas contas já pagas porque o documento, enviado em abril ou maio de cada ano, vale como recibo do período anterior. Mas quando você pergunta, todos os órgãos de defesa do consumidor recomendam guardar por cinco anos quase todos os recibos; do IPTU ao IPVA passando pelos de água, luz, gás, telefone, TV a cabo, cartão de crédito, mensalidade escolar, convênio médico, seguro, aluguel e sei lá mais o quê. Haja pastas.

E as garantias de produto? Tenho caixas e caixas. Tudo em nome da paranoia de um dia precisar. E quando a gente precisa a garantia acabou de acabar. Mas a melhor coisa de guardar para olhar de vez em quando são as fotografias. Quando você resolve remexer nelas é uma viagem no tempo, na moda, nos costumes, na saudade. Não tem preço. Aí a gente chega à conclusão de que valeu a pena guardar. E fica com pena de quem só está vivendo nesta era digital, onde todas as fotos estão num telefone ou num computador e podem desaparecer a qualquer momento. Não terá fotos para rever. Afinal, quem, hoje em dia, copia fotos em papel?

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