Por thiago.antunes
Publicado 25/04/2014 01:52

Rio - Diz a história que a fogueira é elo comum entre as festas juninas pelo mundo. O São João desse hemisfério assa as batatas no mesmo braseiro que esquenta um pouco o prado finlandês. Sardinhas são servidas no arraial português, e, original da França, as quadrilhas se mantêm numa valsa de interior. Nós, caipiras, dançamos forró, samba de coco, comemos pamonha e milho cozido, sempre em roupas com remendos.

Pra acalmar o frio da época, uma caneca cheia de quentão. Sem esse vinho quente a quermesse não está completa. Recorri a Batista, na trinca com Antonio e Pedro, pra alcançar São Jorge, Guerreiro.
Já faz um bom tempo que visito a igreja do santo nas comemorações de 23 de abril. O saudoso Camunguelo, estivador e flautista de mão cheia (e, que mão! Parecia uma raquete), me apresentou Quintino, o seu altar de devoção.

A rua Clarimundo de Mello, interditada, se tornava um Caminho de Santiago de Compostela suburbano com seus fiéis carregando espadas de São Jorge, o ‘galho’ verde da purificação. No adro da igreja, a fome fazia o sinal da cruz. Copos de mocotó, caldo verde, angu com bofe, churrasquinho e linguiça no pão constavam no cardápio das cantinas benzidas.

Deu-se o estalo. São Jorge é das biroscas cariocas, dos campos de várzea. São Jorge é dos nossos. Lá fora, o samba corria solto e, amparado pelos soldados da música, fui acender minha velas na Rua da Alfândega, a capela emprestada. Lá encontrei, sentado nas cercanias, o mestre Jamelão, calça de linho branca, ouvindo o repertório na roda organizada pelo querido Marcelinho Moreira.

Às cinco da manhã já se ouvia o rumor de fé e esperança por dias melhores. Tambores pra Ogum, Oração a São Francisco de Assis e alguns goles na tulipa gelada. Sagrado e profano em perfeita harmonia. É uma festa popular. É São Jorge, o padroeiro dos renitentes. 

Acordo pra missa das oito. Estou perfumado pro longo dia de comemorações, rever amigos, dar nó na fita vermelha e brindar com o Guerreiro por mais um ano de vitórias. O padre oferece água benta, a emoção toca no coração. Amém.

Em volta, um silêncio chama a atenção. As barracas com seus temperos fortes, e bebidas no mesmo grau, foram proibidas. Caí do cavalo. Se fosse possível traduzir, extraíram o gurifim da ressurreição. Um dia de aproximação da religião e seus admiradores cortado na raiz. As garras desse dragão, o santo não esperava.

E-mail: moaluz@ig.com.br

Você pode gostar

Publicidade

Últimas notícias