Jaguar: Como sequestrei García Márquez

Disse para o Gabo: “Eu sei como se rasga catálogo telefônico.” Uma vez fiquei impressionadíssimo quando vi um fortão rasgando em dois um catálogo

Por O Dia

Rio - Digamos que o ano era 1971. Não sei quem me levou a uma festa na casa de Oscar Niemeyer, na avenida do mesmo sobrenome, em homenagem a García Márquez, quando esteve no Rio. Bebendo o scotch do anfitrião, expoentes da Inteligentzia e da Burritzia (elas não se largam) se desdobravam para homenagear o gênio de Aracataca.

Eu estava na fila do beija-mão do Gabo, como o chamavam os íntimos, ou seja, todos os cinco mil presentes à boca-livre na casa do Oscar. A história — que pode ser uma alucinação na qual acabei acreditando — é (seria) a seguinte: alguém propôs à Codecri publicar ‘Cem Anos de Solidão’. Tarso de Castro, diretor do ‘Pasquim’ e da editora, esnobou: “Livro de cucaracha, nem pensar.” Repito: se alguém me desmentir possivelmente terá razão.

Pode ser que fosse o livro de outro cucaracha. Já se passaram mais de 40 anos e rios de birita. Me lembro do exuberante Darcy Ribeiro explicando ao futuro prêmio Nobel de Literatura (1982) como transar numa rede. Gabo se mostrava interessadíssimo. Eu também; num igarapé perto de Manaus, levei um tombo quase fatal quando me aventurei a namorar na rede. Depois do Darcy, chegou a minha vez. Aí me deu um estalo.

Disse para o Gabo: “Eu sei como se rasga catálogo telefônico.” Uma vez fiquei impressionadíssimo quando vi um fortão rasgando em dois um catálogo. “Qualquer um é capaz de rasgar catálogos.” Oscar, em parte porque ficou curioso e em parte para me pegar na mentira, disse que tinha um monte de catálogos velhos no porão.

E ficamos os três rasgando catálogos até que um pessoal do Cinema Novo foi resgatar Gabo do ‘sequestro’. A esta altura o leitor deve estar achando que sou mais mentiroso que deputado e senador, mas revelo o macete: pega-se um catálogo, tem que ser bem velho, com o papel meio podre, quanto mais velho, melhor. Segure firmemente a lombada com as mãos e torça como uma roupa que acabou de ser lavada.

Quando aparecer uma rachadura na lombada force para baixo — sempre torcendo, até partir em dois. PS: depois que escrevi a crônica peguei uma Telelista e tentei rasgar, sem sucesso. O máximo que consegui foi uma pequena fenda na lombada. Uma explicação possível: o papel usado no catálogo melhorou enquanto eu piorei. Afinal, tinha 43 anos e hoje, 82.

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