Frei Betto: Amarildo e Douglas

O governo do PMDB no Rio, com apoio do PT, acreditou ter inventado a roda ao instalar UPPs. Cometeu duplo erro

Por O Dia

Rio - Primeiro, mataram Amarildo de Souza. Ajudante de pedreiro, pai de família, reputação ilibada, caiu em mãos de policiais da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Favela da Rocinha e desapareceu. 

Agora assassinaram o bailarino Douglas Rafael Pereira, encontrado morto, com tiro nas costas, na creche do Pavão-Pavãozinho. Testemunhas viram-no em mãos de policiais militares da UPP local.

Favela não é reduto de bandidos, nem a PM, corporação de assassinos. Moram em favelas famílias trabalhadoras sem recursos para adquirir um imóvel melhor ou pagar aluguel em áreas urbanizadas, dotadas de saneamento e vias asfaltadas.

Há, sim, entre os moradores da comunidade, bandidos e traficantes de drogas, assim como eles também são encontrados em bairros como o Morumbi, em São Paulo, e a Barra da Tijuca, onde residem famílias de alto poder aquisitivo.

Nas décadas de 1970-80, a expansão de movimentos populares no Brasil se estendeu para o interior das favelas. No Rio e em São Paulo multiplicavam-se associações de moradores.

Em fins dos anos 1980 e início da década seguinte, lideranças comunitárias da periferia começaram a ser cooptadas por prefeitos e governadores. Na ausência de serviços públicos básicos, o narcotráfico, apesar da violência, assegura aos moradores alguns benefícios.

Por sua vez a PM, um resquício da ditadura, tornou-se, no Rio e em São Paulo, o avatar na guerra contra o narcotráfico. A ação preventiva deu lugar à mera ação repressiva. Sem preparo pedagógico e psicológico, policiais militares encaram moradores de favelas como o governo dos EUA a jovens muçulmanos: todos são suspeitos até prova em contrário.

O governo do PMDB no Rio, com apoio do PT, acreditou ter inventado a roda ao instalar UPPs em áreas de conflitos. Cometeu duplo erro: por não fazer os serviços públicos acompanharem a entrada de policiais nas comunidades e por não capacitar os integrantes das UPPs.

A ação repressiva não veio casada com a ação educativa. Crianças e jovens continuaram sem escolas de qualidade, oficinas de arte, áreas de lazer e esporte. E por vestirem uma farda e portarem armas, PMs se arvoram em senhores acima do bem e do mal. Revistam um trabalhador como um senhor de engenho tratava um escravo em tempos coloniais.

Amarildo e Douglas, como tantos outros anônimos, foram sacrificados pela prepotência. Quem será a próxima vítima?

Últimas de _legado_Opinião