Por bferreira

Rio - A tese da Delegacia de Homicídios de Nova Iguaçu para explicar a morte do coronel Paulo Malhães — a de que ele teria sofrido um enfarte quando era vítima de um roubo em sua casa, perpetrado por bandidos comuns — traz algumas dúvidas. Estas se tornaram ainda maiores quando, na terça-feira desta semana, pude conversar com o caseiro.

Apontado pela polícia como cúmplice confesso do assalto que redundou na morte de Malhães, ele negou ter feito a confissão. Analfabeto, não tem sequer a assistência de um advogado. Tomamos a iniciativa de oficiar a Defensoria Pública pedindo que esta assumisse sua defesa.

Malhães tinha recentemente confirmado torturas, assassinatos e ocultação de corpos de presos políticos na ditadura, fornecendo informações inéditas e relevantes à Comissão da Verdade. A sua morte, em seguida, torna inevitável a suspeita de queima de arquivo ou tentativa de intimidação de outros agentes propensos a falar. Depois surgiram questões que fizeram aumentar o ceticismo em relação à versão oficial.

Primeiro: como explicar que a morte de Malhães tenha sido noticiada num site mantido pela esposa do coronel Brilhante Ustra, ‘porta-voz’ dos setores ligados à repressão polícia, meia hora antes de a grande imprensa publicá-la em seus sites? Quais foram as fontes da esposa de Ustra?

Segundo: como explicar que bandidos comuns da periferia de Nova Iguaçu tenham se preocupado em retirar discos rígidos de computadores do coronel, como O DIA mostrou em 30 de abril?

A isso se somam outras informações que parecem estranhas: ainda segundo O DIA, os ladrões usaram luvas cirúrgicas para não deixar impressões digitais, o que não é usual caso eles fossem mesmo pés de chinelo, como afirma a polícia; e o fato de eles, depois de entrarem na residência, terem esperado a chegada do coronel e sua mulher e, depois, ainda ficarem oito horas com Malhães em um cômodo.

A Comissão Nacional da Verdade e a Comissão da Verdade do Rio já pediram a entrada da Polícia Federal nas investigações. A providência ajudaria que não pairassem dúvidas sobre um caso tão importante.

Wadih Damous é presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB e da Comissão da Verdade do Rio

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