Por thiago.antunes

Rio - Só Erich von Strohein podia se comparar a ele: ambos fugiram do nazismo, sempre roubaram as cenas, ofuscando astros e estrelas, e eram intelectuais sofisticados. Ultimamente, tenho pensado muito no Levigói — como pronunciava seu grande amigo Ivan Lessa. E mesmo antes de ver na TV ‘Eu, Eu, Eu, Lewgoy’, documentário de Claudio Kahn — que vi no canal Curta! Como o nome indica, só exibe curtas e documentários.

Aviso aos navegantes: com raríssimas exceções, aquele lixo costumeiro: capoeiristas, molecada jogando pelada, subindo e descendo ladeira de favela, soltando pipa no alto do morro, vira-latas (tem sempre um zanzando em cena, com direito a close) mulheres lavando roupa , varal — tem muito varal —, e tome Cristo Redentor e vista da Baía da Guanabara. Como todos os canais, repete o mesmo filme várias vezes por dia; no caso do documentário sobre Lewgoy, é uma vantagem.

Ótimos depoimentos de Sergio Augusto e do casal Verissimo. Falava vários idiomas, vasta cultura literária, sabia muito de tudo. Fez bom proveito da bolsa que ganhou para estudar em Yale e chegou a ser professor lá. Poderia fazer sucesso em Hollywood — como Strohein — mas, depois de 10 anos em Nova York, preferiu voltar para ser ator no Brasil, ou seja, ganhando pouco (quando havia trabalho). A parte mais emocionante é o depoimento de Herzog sobre sua participação em ‘Fitzcarraldo’, em que Lewgoy contracena com o alemão Karl Klinsky, um gênio esquizofrênico.

A filmagem foi tão épica quanto o tema: a história de um homem que decide transportar uma embarcação do tamanho da Cantareira, através da selva amazônica, até o Pacífico. Ainda não falei do convívio com ele, no ‘Pasquim’ e nas manhãs de sábado na Cobal do Leblon. Dividíamos a mesa, Célia e eu, com Verissimo e Lúcia (quando estavam no Rio), João Ubaldo, Chico Caruso, Tom, Macalé, Antonio Pedro, só gente de fino trato. Às vezes éramos premiados com a presença da esplendorosa Tônia Carreiro. Lewgoy adorava provocá-la esbanjando palavrões cabeludos. Ela ria.

No ‘Pasquim’ exercitava seu talento para o humor. Um exemplo: ensinando os leitores a dobrar uma esquina. Título: ‘Como dobrar uma esquina’. Três fotos, sem texto, do Lewgoy dobrando uma esquina. Foi o mais versátil ator que já vi atuar. Ia de Herzog e Glauber às chanchadas da Atlântida, com Oscarito e Grande Otelo. Me invejem por ter sido seu amigo.

Você pode gostar