Frei Betto: Dom Tomás, bispo dos excluídos

Para melhor atender a região da prelazia, que abrangia todo o Vale do Araguaia paraense e parte do Baixo Araguaia mato-grossense, frei Tomás aprendeu a pilotar avião

Por O Dia

Rio - Em fevereiro de 1973, na Penitenciária de Presidente Venceslau (SP), misturados a presos comuns, cinco presos políticos — frei Fernando de Brito, Maurice Politi, Ivo Lesbaupin, Wanderley Caixe e eu – fomos castigados, com 15 dias de isolamento em celas individuais, por demonstrar solidariedade ao sexto preso político, Manoel Porfírio, que sofrera punição injusta.

No domingo, 11 de fevereiro, ao encerrar o período do nosso isolamento, recebemos inesperadamente a visita dos bispos Tomás Balduino, José Maria Pires, Waldyr Calheiros e José Gonçalves. Tinham aproveitado o recesso da assembleia dos bispos do Brasil, em Itaici (SP), para voar até Presidente Venceslau no teco-teco pilotado por Dom Tomás Balduino.

Relatamos as torturas a que eram submetidos os presos comuns e as sanções injustas impostas a nós, presos políticos. Na tarde do mesmo dia, na reunião de Itaici, os bispos repetiram nossas denúncias em coletiva de imprensa. Nosso confrade na Ordem Dominicana, Dom Tomás Balduino, falecido no último dia 2 de maio, em Goiânia, em decorrência de embolia pulmonar, visitava periodicamente os frades encarcerados e não temia denunciar a ditadura e defender os direitos humanos.

Formado em Filosofia, Dom Tomás fez o mestrado de teologia em Saint Maximin, na França. Em 1957, nomeado superior da missão dominicana na Prelazia de Conceição do Araguaia (PA), viveu de perto a realidade indígena e sertaneja.

Para melhor atender a região da prelazia, que abrangia todo o Vale do Araguaia paraense e parte do Baixo Araguaia mato-grossense, frei Tomás aprendeu a pilotar avião. Amigos da Itália o presentearam com um teco-teco, com o qual prestou inestimável serviço, sobretudo na articulação de povos indígenas. Também ajudou a salvar pessoas perseguidas pela ditadura militar.

Nomeado bispo diocesano da cidade de Goiás, em 1967, foi ordenado bispo e ali permaneceu 31 anos, até 1999. Ao completar 75 anos, apresentou sua renúncia e mudou-se, como simples frade, para o convento dominicano de Goiânia. Seu ministério episcopal coincidiu, por longo tempo, com a ditadura militar (1964-1985).

Movimentos sociais contaram com o apoio de Dom Tomás, que participou ativamente da criação do Conselho Indigenista Missionário, em 1972, e da Comissão Pastoral da Terra, em 1975. Seu exemplo de vida perdura na memória de todos que conheceram um homem fiel à proposta do Evangelho de Jesus. Ele visitava os encarcerados e não temia denunciar a ditadura e defender os direitos humanos

Frei Betto é autor de ‘Fome de Deus’ (Paralela)

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