Tião Santos: Uma semente de esperança

Até o fim de 2015, o governo se comprometeu a extirpar do território nacional todos os lixões abertos

Por O Dia

Rio - A esperança reciclada. É isso o que vejo quando olho para o Polo de Reciclagem de Gramacho, em Caxias. Em um lugar marcado por muito trabalho e sofrimento — mas que representou a chance de sobrevivência de mais de uma geração de excluídos —, surge, finalmente, o que muitos dos que, como eu, ali cresceram sempre almejaram: a possibilidade de um presente e um futuro dignos e condições de trabalho saudáveis, parte de projeto sustentável, que visa também à conscientização da necessidade da reciclagem.

O Lixão de Gramacho foi fechado em 2012, mas as marcas do que ele representa como prova viva da desigualdade social, do desperdício e da falta de consciência permaneceram. No Rio, a instalação do polo permitirá aos mais de 400 catadores da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho trabalharem com reciclagem que agregue valor aos produtos finais extraídos do lixo.

O projeto do polo, que incluiu a construção de galpões, de um centro administrativo para realização de cursos de qualificação profissional, de creche e de unidades de processamento de resíduos — apoiada por um plano de gestão e de qualificação profissional continuada —, além da aquisição de maquinário, complementa uma transformação com a retomada de uma história que começou pelo fim.

Até o fim de 2015, o governo se comprometeu a extirpar do território nacional todos os lixões abertos. Estima-se que ainda existam 2.906 em atividade. Das 189 mil toneladas de resíduos sólidos produzidas por dia, apenas 1,4% é reciclada. O Brasil avançou no combate à miséria, mas precisamos de um ‘choque de educação’, como o do Chile, rumo a um futuro sustentável.

Nasci e fui criado com outras famílias num ambiente insalubre, praticamente dentro de uma montanha de resíduos, gazes tóxicos, chorume, em uma espécie de caldeirão onde vidas tinham pouco valor. Sentíamo-nos como parte do que a sociedade descartava, sem direito a sonhos e a projetos e sem perspectivas.
Como foi possível reciclar minha vida? Como liderei um grupo que reivindica e exerce seus direitos? Como pude ajudar a transformar excluídos em trabalhadores e empreendedores?

São perguntas complexas que têm respostas simples na educação e no exemplo que tive de minha mãe, que, em meio à luta para sustentar oito filhos no lixão, plantou em nós a semente da inquietação e da esperança. Temos que avançar em escala, criando multiplicadores de reciclagem dessa esperança. A luta pelo fechamento dos lixões deve alcançar dimensões globalizadas, e a educação é a base de todo o processo.

Tião Santos é catador e presidente da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano do Jardim Gramacho

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