Fernando Scarpa: Lançados ao cotidiano

Sair da euforia, do prazer, para a realidade da roupa de trabalho que te espera junto à condução, no trânsito caótico desse primeiro dia útil da semana, é um corte duro

Por O Dia

Rio - O que ainda nos resta viver neste ano de Copa do Mundo, eleições, greves, inflação e expectativas de um futuro 2015 incerto para a economia do país? Quem serão nossos futuros presidente e governador? O que será de nossas vidas e do nosso país? Tudo se assemelha a uma grande onda que ameaça nos devorar, impotentes, apavorados. Precisamos saber nadar, ter fôlego e remar nesse mar de expectativas e possíveis desilusões!

Mas como somos afetados no cotidiano, a partir desses acontecimentos, das notícias sobre a violência na cidade, as obras que atrapalham e alteram o dia a dia das nossas mais simples movimentações? O dia, para a maioria de nós, se inicia cedo, com o toque do despertador. É levantar para mais uma jornada de trabalho acalentados pela expectativa barata de que chegaremos ao fim do expediente e da semana, quando a vida será livre por um resto de horas, na saída do trabalho. Essas voam, e dormir se faz necessário, o dia amanhece a cada dia. A vida se repete...

Esperar a sexta-feira ou o sábado, para alguns, significa desejar a liberdade de resgatar a vida capturada pelo trabalho. Liberdade curta, o tempo passa, e a necessidade de descanso é maior do que os momentos do fim de semana, que termina no entardecer do domingo. Triste, não adianta prolongá-lo, pois o preço fica caro na segunda feira. A vida é um fim de semana? Pode ser!

Sair da euforia, do prazer, para a realidade da roupa de trabalho que te espera junto à condução, no trânsito caótico desse primeiro dia útil da semana, é um corte duro. Aquele sono incontrolável, a preguiça de pensar nos cinco dias de trabalho que vêm pela frente, e a lentidão do raciocínio são vencidas às custas dos cafezinhos tomados pela manhã. Sim, alguns de nós somos movidos a cafeína na segunda-feira. Fazer o quê? É o que se tem!

Hoje é segunda feira, atravessar este dia é o desafio! Quem estiver lendo agora o que escrevo pode se ver revelado nas palavras, identificado com o que digo. Expectativas de feriados sempre amenizam as semanas. Neste mês, o recurso não existe: agora só em junho. Está longe o próximo, serão semanas inteiras. Coragem, a brincadeira dos feriados seguidos acabou.

Amanha é terça, o pior passou, já é véspera de quarta-feira, meio da semana. Serve o argumento de pensar assim, ameniza os três dias que ainda faltam para o alívio, a sonhada liberdade que a sexta-feira traz. É fim do expediente, vem a viagem marcada, a cerveja gelada junto aos cigarros fumados nos bares. As paqueras e os encontros fazem a vida acontecer.

Ela volta a ter graça no prazer das conversas, quando se dissolve o cansaço da semana trabalhada. Aí tudo é festa. Só um porém: é véspera de sábado, o fim de semana está começando, pior, quase acabando. Domingo chega, tudo volta. Os dias ficam banais, a segunda-feira volta a se anunciar e, nessa movimentação, vai a vida, se esvaindo no desafio de vencer outra semana. É o eterno retorno de um cotidiano massacrante, gratuito.

Afinal, somos lançados ao mundo sem o nosso consentimento e nem sempre podemos inventar a vida como queremos e sonhamos. Alguns até podem, nem todos. Mesmo os que podem não escapam à banalidade, tudo se repete de algum modo, até o ócio!

Fazer o quê? Prazer de poucos, sofrimento de muitos. Assim segue a humanidade da qual fazemos parte e na qual, inseridos, nem sempre podemos escolher plenamente o que fazer. Vivemos quase como condenados, desejando a liberdade, sonhando com férias e dias livres, sem o compromisso do trabalho, que, mesmo quando agradável, furta a possibilidade do prazer de uma vida ao sabor do vento! “Navegar é preciso, viver não é preciso!”

Fernando Scarpa é psicanalista

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