Por bferreira

Rio - O 13 de maio de 1888 consolidou a força do povo, que naquela década desdobrou-se em lutas para pôr fim à escravidão. As ruas e praças eram pequenas para ouvir o clamor dos poetas, intelectuais, donas de casa, ex-cativos, abolicionistas e demais brasileiros que, com suas lutas, queriam realizar um sonho — o fim da escravidão no Brasil.

O Congresso de 1888, de maioria escravocrata, resistia em aprovar o projeto de lei que colocaria fim àquele regime desumano e libertaria cerca de um milhão de escravos. A pressão das forças libertárias e a ocupação do entorno do Congresso criaram as condições para a sensibilização das vozes contrárias.

Ainda assim, a votação não foi por unanimidade. Alguns congressistas, que passaram ao lixo da história, votaram pela manutenção do regime. Contudo, quando o último voto foi proferido, as ruas e praças do país explodiram em festa. Foi uma vitória com a força do povo e uma derrota dos escravocratas. Ficaram tão indignados que consta um registro de diálogo entre a princesa Isabel e o barão de Cotegipe, que lhe diz: “A senhora nos tirou os escravos, nós lhe tiraremos a coroa.” Ainda lembro de meu avô Agenor, nos anos 1960, segurando-me com uma mão e na outra uma garrafa de pinga, gritando na subida do morro: “Hoje é dia 13 de maio. Fim da escravidão!”

O civismo na comemoração de datas nacionais, algumas discutíveis, não tem correspondência, porém, para o fim da escravidão. O feriado nacional de 13 de maio só ocorreu no dia da votação. Depois, acabou-se, porque o status quo não estava nem aí para relembrar a vitória da luta dos negros. Pelo contrário, não queriam que conhecessem o gosto da vitória, apenas que fossem perdedores. A bem da verdade, houve vedação tácita às comemorações, como em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano.

Nesse sentido, vale destacar o Bembé do Mercado, como participação política e vitoriosa do candomblé pelo fim da escravidão no Brasil. O Bembé do Mercado é muito mais que cultura afro-brasileira: é a afirmação de que a abolição nasceu da luta de todos, com destaque para os descendentes de africanos que ocuparam as ruas e praças para exigir o fim daquele regime iníquo. O Bembé contrariou os proprietários de terras, escravocratas e demais segmentos que não queriam que os ex-cativos festejassem. Seus tambores ecoaram a noite toda, anunciando a época que estava nascendo. Assim, Santo Amaro da Purificação festejou o fim da escravidão e até hoje é um marco das lutas e vitórias do povo negro.

A memória das lutas dos descendentes de africanos no Brasil foi sempre escondida do povo, e é importante que se conheça sobre elas. A Lei 12.288, que dispõe sobre o Estatuto da Igualdade Racial, é um instrumento importante para que o Estado cumpra esse papel. É preciso reunir em um equipamento público a memória do tráfico negreiro e da escravidão, para que as interpretações que desejam impor à comunidade negra a derrota, e não o festejo de suas vitórias, fiquem nas gavetas dos escribas racistas. O Bembé do Mercado é uma página viva da luta do povo brasileiro, que festeja efusivamente o 13 de maio e luta pela igualdade de oportunidades no Brasil.

Eloi Ferreira de Araujo e é ex-ministro da Igualdade Racial

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