Por bferreira

Rio - Em frente à ABBR, onde se tratam os pacientes em reabilitação, uma senhora num carro parecia indecisa, querendo cruzar a pista da Rua Jardim Botânico. Atrás dela, também saindo da associação, uma van acelerava raivosa. Buzinava. E nada de a senhora sair da frente. Os curiosos pararam para ver. A van enfezada fez uma manobra radical e conseguiu se desvencilhar do carro, saindo em disparada do estacionamento. Olhei e a van era da Sociedade Viva Cazuza. “Que absurdo!”, pensei. “Vou ligar para lá!”.

Meio minuto depois, enquanto eu já tinha dado a sentença final, chega uma mulher rindo, cheia de embrulhos de cuscuz, vendidos na barraca adiante. Entra no carro parado, que, enfim, dá a partida. Os curiosos que chegaram antes de mim comentam: “Que desrespeito! A van estava coberta de razão! Onde já se viu fazer isso?!”. E foi aí que entendi tudo. Na verdade, o carro estava errado, que quis que o mundo parasse para que a fulana comprasse doces, atravancando a saída dos pacientes.

A situação me fez pensar no quanto estamos sempre armados para julgar o que acontece à nossa frente, sem saber o que se passa de fato. Pegamos fragmentos das situações, totalmente fora do contexto em que se apresentam, e jogamos as nossas fantasias em cima, criando uma terceira situação. Não sabemos de nada, inocentes, mas, mesmo assim, somos capturados para dentro da cena da vida do outro e criamos um enredo.

Também aconteceu comigo. Passeava com meu filho e, sem motivo aparente, ele começou a chorar. Eu, que sempre me gabo de conseguir acalmá-lo, desta vez não consegui. Peguei a criança no colo e, com a barriga, ia empurrando o carrinho. Não deu certo, pois o carrinho ia para a esquerda, ou para a direita, e o bebê mal se equilibrava, com risco de cair. Dei suco, troquei falda, tentei ninar, nada adiantava. Eu já estava há um bom tempo refém da situação, quando me dei conta de que teria que voltar o quanto antes, para o conforto dele. Foi o que fiz. Nisso, vi que dois jovens que pegaram o mesmo trajeto começaram a me olhar com raiva, como se eu fosse uma megera. Como era capaz de deixar o menino aos berros no carrinho? Pensei em retirá-lo, quando tive a serenidade suficiente para deixar que pensassem o que quisessem. Eu sabia o contexto.

E sabia que o melhor seria chegar logo em casa. Se eu parasse para tentar evitar o julgamento alheio, seria uma rendição às neuroses, como se eu fosse morrer por pensarem que eu não era perfeita, boa mãe. Não me importei e simplesmente fiz o que achava certo.

A partir dos dois casos, tento não ter opinião diante das cenas que vejo. São apenas um capítulo de uma longa história com começo, meio e fim — e que simplesmente desconheço.

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