Por bferreira

Rio - Outono no Rio de Janeiro. Um céu pra acreditar em Deus.

Quando fiz minhas primeiras músicas com o Aldir, a cidade já era a nossa mulher, a mesma de Noel Rosa. A cantora Leila Pinheiro gravou ‘O Mar no Maracanã’, uma fábula aonde o rio tijucano, serpenteando às margens do bairro, desemboca na Bahia de Caymmi, relembrando Dora, rainha do frevo e do maracatu.

Da mesma semente, Selma Reis lança em 1991 um disco chamado ‘Só Doí Quando eu Rio, título de outra canção com o parceiro querido. Melancólica, a música termina com versos de resignação: Rio de Janeiro, favelas no coração.

A madrinha Beth Carvalho já tinha gravado ‘Saudades da Guanabara’, um mapa que inscreve o substantivo de cada bairro. Com a chegada no nosso samba, do ídolo Paulo Cesar Pinheiro, “plantei ramos de laranjeiras, foi meu juramento” pede letras minúsculas nas regiões desse balneário.

Aldir faz “piquenique na mesa do imperador”. Eu peço, em nome de todos que o “Brasil tire as flechas do peito do meu padroeiro, que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar”.

Um estresse de vias interditadas, o mar revolto de arrastões, engarrafados na lei seca, nos resta a água dos ambulantes. Nem piada, mais se conta.

Preciso mudar de assunto.

Estamos num restaurante, sistema rodízio. Meu amigo percebe nas suas costas uma mancha de gordura, o suco de alguma carne e chama o maître:

— Meu chapa, olha aí na minha camisa, o que é isso?

Atencioso, o responsável pela praça se aproxima e:

— Pelo cheiro é javali...

Não podemos esquecer as nossas origens.

O carioca sonha com a sogra e joga na cobra. Mas só da boca pra fora. Política, dá boa vizinhança. Happy hour, desde o meio-dia. Fazer bolão da Copa, torcer contra a Argentina, sempre apostando um engradado, sem bico seco. Ainda tem a vaquinha pra TV dos jogos vespertinos, sorteada no fim do torneio.

Sinto falta da meia-porção, do técnico de botequim gritando sobre as injustiças no futebol, de um cotidiano mais ameno.

Estamos urgentes numa paisagem que pede contemplação.

Um pouco de paz pra esse outono no Rio de Janeiro.

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